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Caixa mostra carreira irregular de Rita Lee

por Marcos Lauro em 18/12/2015

Alguns artistas ganharam justas homenagens neste segundo semestre de 2015. Caixas reuniram as obras de Zeca Pagodinho, Vanusa, Os Mutantes e Arnaldo Baptista, apenas para citar alguns. E Rita Lee foi uma das homenageadas na caixa com 21 CDs (20 de carreira e um com raridades).

Rita Lee é dessas artistas respeitadas pelo seu histórico, já que há anos não produz nada de relevante. Ela participou ativamente de um dos momentos mais criativos da música brasileira com Os Mutantes (Tropicalismo e experimentações mil no rock nacional). Depois, seguiu o ritmo em sua carreira solo, unindo-se à banda Tutti Frutti e, logo depois, ao guitarrista Roberto de Carvalho. A caixa compreende o período de 1970 (com o disco Build Up) até 2004 (com o MTV Ao Vivo).

Mas vamos nos ater ao período que termina em 1983 com o disco Bombom. É um tanto injusto fazer comparações na carreira de uma artista que foi d’Os Mutantes, porque essa experiência foi tão intensa que qualquer coisa que veio depois facilmente se torna menor. Mas impressiona como a trajetória da Rita vai perdendo relevância. As tiradas das letras não são tão criativas e, em alguns momentos, ela se torna uma caricatura de si própria (a versão de “I Wanna Be Sedated”, com o nome “Eu Quero Ser Sedado”, no disco MTV Ao Vivo, é uma das coisas mais pavorosas que pôde ter sido feita com uma música dos Ramones). Por isso, paremos em 1983.

Rita solo (mas ainda com Os Mutantes)
Os dois primeiros discos da caixa ainda têm uma ligação muito grande com Os Mutantes: Build Up é um disco solo, mas tem direção artística de Arnaldo Baptista e participação de Sergio Dias. Já Hoje É o Primeiro Dia do Resto da Sua Vida é um disco d’Os Mutantes disfarçado de Rita Lee. A história: No começo da década de 1970, o Brasil tinha apenas dois estúdios de gravação profissionais e o início de uma demanda muito grande, tanto por parte das grandes gravadoras quanto por conta do mercado publicitário. Então, o Grupo Estado, que já tinha a rádio Eldorado, resolveu investir nesse mercado e, em 1971, abriu o Estúdio Eldorado, na Rua Major Quedinho, 76. E com um importante detalhe: era o primeiro estúdio da América Latina a ter uma mesa de 16 canais. Com o estúdio montado, seria interessante ter uma banda que testasse todas as possibilidades e limites dos modernos equipamentos. Assim, chegou-se a um nome: Os Mutantes. Mas havia um problema: o disco sairia em 1972. A banda já havia lançado o álbum Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets e o contrato com a Polydor só permitia um lançamento por ano. A solução: gravar e lançar como se fosse um disco solo da sua vocalista, Rita Lee. Assim nasceu Hoje É o Primeiro Dia do Resto da Sua Vida, que se tornou o último disco gravado pela formação original d’Os Mutantes. Logo depois, Rita Lee partiria para a carreira solo de verdade e Os Mutantes seguiriam pelo caminho da psicodelia (também sem Arnaldo Baptista, que não concordou com os rumos da banda). O disco é, como não podia deixar de ser, experimental, tanto por ter um estúdio moderno nas mãos quanto pelo perfil da própria banda, sempre dedicada a fazer o que nunca foi feito. Toda a irreverência do grupo está condensada nestas 10 faixas. Tem até samba: “Teimosia”, com sua bateria alucinante e um diálogo surreal. A voz de Rita Lee brinca com a tecnologia disponível: vai de um lado para o outro nos falantes, ganha efeitos. Sem contar que… como era doce a voz da Rita! O samba volta em “Amor Branco e Preto”, uma composição de Arnaldo Baptista e Rita Lee sobre o Corinthians. Uma narração de um jogo de futebol brinca com nossos ouvidos, indo e voltando, indo da direita para a esquerda, enquanto o sambinha meio debochado fala sobre seu amor pelo Timão com um sotaque paulistano bem carregado. No final da faixa “Tapupukitipa”, aparece uma conversa entre todos os Mutantes, que discutem sobre os tais 16 canais da mesa, sobre como o vocal deve aparecer na música e outros detalhes técnicos. Uma forma de evidenciar que aquilo não passava de um grande laboratório para eles fazerem seus experimentos.

Rita Lee e Tutti Frutti
Fruto Proibido acabou sendo a grande estréia de Rita Lee em carreira solo depois d’Os Mutantes. Isso porque André Midani, diretor da gravadora Philips, não gostou do disco que ela gravou dois anos antes e engavetou o projeto. Ela resolveu expressar seu descontentamento de forma bastante sutil: junto com Tim Maia, um dos seus melhores amigos na época, quebrou toda a sala de Midani na gravadora. E depois disso, claro, só restava a ela assinar com outra empresa. Assim, Fruto Proibido saiu pela Som Livre. Na época, Luiz Carlini era o guitarrista do Tutti Frutti e parceiro em algumas composições, como a música que se tornou famosa novamente quando Rita lançou seu acústico, a “Agora só Falta Você”. A banda foi formada para acompanhar Rita Lee e seguiu com ela até 1978, quando Carlini deixou o caminho livre para Roberto de Carvalho assumir a identidade sonora do trabalho da cantora. Fruto Proibido tem, claro, muito rock and roll (“Esse Tal de Rock Enrow”, por exemplo), mas também tem blues (“Cartão Postal”) e talvez a balada mais famosa da carreira da cantora, que marcou época: “Ovelha Negra”. A caixa traz três discos desse período: Fruto Proibido (1975), Entradas e Bandeiras (1976) e Babilônia (1978). Tem também o Refestança, disco ao vivo de Rita e Gilberto Gil, de 1977.

Rita Lee e Roberto de Carvalho
Com o disco Rita Lee, de 1979, acontece uma virada no som e até no visual – quem assina a arte do álbum é o Hans Donner (sim, aquele da Rede Globo). Sai a banda Tutti Frutti e entra Roberto de Carvalho. O som fica mais pop, dialogando com o que estava bombando lá fora (disco music, sintetizadores, efeitos eletrônicos etc). As baladas continuam matadoras nesse disco: “Doce Vampiro” e “Mania de Você” são bons exemplos. Os discos seguintes são menos certeiros, mas trazem clássicos: Rita Lee, de 1980, abre com “Lança Perfume” e tem “Caso Sério”; Saúde, de 1981, abre com a faixa-título e tem “Banho de Espuma” e “Mamãe Natureza”; Rita Lee e Roberto de Carvalho, de 1982, tem “Flagra e Bombom, de 1983, inclui “Desculpe O Auê”. Todas músicas reconhecidas até hoje como fundamentais na carreira da Rita Lee. Vale nota também o Acústico MTV de 1998, que serviu para apresentar Rita Lee para uma nova geração que não viveu o auê dos anos 1970 e 1980.

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Caixa mostra carreira irregular de Rita Lee

por Marcos Lauro em 18/12/2015

Alguns artistas ganharam justas homenagens neste segundo semestre de 2015. Caixas reuniram as obras de Zeca Pagodinho, Vanusa, Os Mutantes e Arnaldo Baptista, apenas para citar alguns. E Rita Lee foi uma das homenageadas na caixa com 21 CDs (20 de carreira e um com raridades).

Rita Lee é dessas artistas respeitadas pelo seu histórico, já que há anos não produz nada de relevante. Ela participou ativamente de um dos momentos mais criativos da música brasileira com Os Mutantes (Tropicalismo e experimentações mil no rock nacional). Depois, seguiu o ritmo em sua carreira solo, unindo-se à banda Tutti Frutti e, logo depois, ao guitarrista Roberto de Carvalho. A caixa compreende o período de 1970 (com o disco Build Up) até 2004 (com o MTV Ao Vivo).

Mas vamos nos ater ao período que termina em 1983 com o disco Bombom. É um tanto injusto fazer comparações na carreira de uma artista que foi d’Os Mutantes, porque essa experiência foi tão intensa que qualquer coisa que veio depois facilmente se torna menor. Mas impressiona como a trajetória da Rita vai perdendo relevância. As tiradas das letras não são tão criativas e, em alguns momentos, ela se torna uma caricatura de si própria (a versão de “I Wanna Be Sedated”, com o nome “Eu Quero Ser Sedado”, no disco MTV Ao Vivo, é uma das coisas mais pavorosas que pôde ter sido feita com uma música dos Ramones). Por isso, paremos em 1983.

Rita solo (mas ainda com Os Mutantes)
Os dois primeiros discos da caixa ainda têm uma ligação muito grande com Os Mutantes: Build Up é um disco solo, mas tem direção artística de Arnaldo Baptista e participação de Sergio Dias. Já Hoje É o Primeiro Dia do Resto da Sua Vida é um disco d’Os Mutantes disfarçado de Rita Lee. A história: No começo da década de 1970, o Brasil tinha apenas dois estúdios de gravação profissionais e o início de uma demanda muito grande, tanto por parte das grandes gravadoras quanto por conta do mercado publicitário. Então, o Grupo Estado, que já tinha a rádio Eldorado, resolveu investir nesse mercado e, em 1971, abriu o Estúdio Eldorado, na Rua Major Quedinho, 76. E com um importante detalhe: era o primeiro estúdio da América Latina a ter uma mesa de 16 canais. Com o estúdio montado, seria interessante ter uma banda que testasse todas as possibilidades e limites dos modernos equipamentos. Assim, chegou-se a um nome: Os Mutantes. Mas havia um problema: o disco sairia em 1972. A banda já havia lançado o álbum Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets e o contrato com a Polydor só permitia um lançamento por ano. A solução: gravar e lançar como se fosse um disco solo da sua vocalista, Rita Lee. Assim nasceu Hoje É o Primeiro Dia do Resto da Sua Vida, que se tornou o último disco gravado pela formação original d’Os Mutantes. Logo depois, Rita Lee partiria para a carreira solo de verdade e Os Mutantes seguiriam pelo caminho da psicodelia (também sem Arnaldo Baptista, que não concordou com os rumos da banda). O disco é, como não podia deixar de ser, experimental, tanto por ter um estúdio moderno nas mãos quanto pelo perfil da própria banda, sempre dedicada a fazer o que nunca foi feito. Toda a irreverência do grupo está condensada nestas 10 faixas. Tem até samba: “Teimosia”, com sua bateria alucinante e um diálogo surreal. A voz de Rita Lee brinca com a tecnologia disponível: vai de um lado para o outro nos falantes, ganha efeitos. Sem contar que… como era doce a voz da Rita! O samba volta em “Amor Branco e Preto”, uma composição de Arnaldo Baptista e Rita Lee sobre o Corinthians. Uma narração de um jogo de futebol brinca com nossos ouvidos, indo e voltando, indo da direita para a esquerda, enquanto o sambinha meio debochado fala sobre seu amor pelo Timão com um sotaque paulistano bem carregado. No final da faixa “Tapupukitipa”, aparece uma conversa entre todos os Mutantes, que discutem sobre os tais 16 canais da mesa, sobre como o vocal deve aparecer na música e outros detalhes técnicos. Uma forma de evidenciar que aquilo não passava de um grande laboratório para eles fazerem seus experimentos.

Rita Lee e Tutti Frutti
Fruto Proibido acabou sendo a grande estréia de Rita Lee em carreira solo depois d’Os Mutantes. Isso porque André Midani, diretor da gravadora Philips, não gostou do disco que ela gravou dois anos antes e engavetou o projeto. Ela resolveu expressar seu descontentamento de forma bastante sutil: junto com Tim Maia, um dos seus melhores amigos na época, quebrou toda a sala de Midani na gravadora. E depois disso, claro, só restava a ela assinar com outra empresa. Assim, Fruto Proibido saiu pela Som Livre. Na época, Luiz Carlini era o guitarrista do Tutti Frutti e parceiro em algumas composições, como a música que se tornou famosa novamente quando Rita lançou seu acústico, a “Agora só Falta Você”. A banda foi formada para acompanhar Rita Lee e seguiu com ela até 1978, quando Carlini deixou o caminho livre para Roberto de Carvalho assumir a identidade sonora do trabalho da cantora. Fruto Proibido tem, claro, muito rock and roll (“Esse Tal de Rock Enrow”, por exemplo), mas também tem blues (“Cartão Postal”) e talvez a balada mais famosa da carreira da cantora, que marcou época: “Ovelha Negra”. A caixa traz três discos desse período: Fruto Proibido (1975), Entradas e Bandeiras (1976) e Babilônia (1978). Tem também o Refestança, disco ao vivo de Rita e Gilberto Gil, de 1977.

Rita Lee e Roberto de Carvalho
Com o disco Rita Lee, de 1979, acontece uma virada no som e até no visual – quem assina a arte do álbum é o Hans Donner (sim, aquele da Rede Globo). Sai a banda Tutti Frutti e entra Roberto de Carvalho. O som fica mais pop, dialogando com o que estava bombando lá fora (disco music, sintetizadores, efeitos eletrônicos etc). As baladas continuam matadoras nesse disco: “Doce Vampiro” e “Mania de Você” são bons exemplos. Os discos seguintes são menos certeiros, mas trazem clássicos: Rita Lee, de 1980, abre com “Lança Perfume” e tem “Caso Sério”; Saúde, de 1981, abre com a faixa-título e tem “Banho de Espuma” e “Mamãe Natureza”; Rita Lee e Roberto de Carvalho, de 1982, tem “Flagra e Bombom, de 1983, inclui “Desculpe O Auê”. Todas músicas reconhecidas até hoje como fundamentais na carreira da Rita Lee. Vale nota também o Acústico MTV de 1998, que serviu para apresentar Rita Lee para uma nova geração que não viveu o auê dos anos 1970 e 1980.