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Catra: "A união dos MCs de São Paulo é muito grande!"

Funkeiro reflete sobre seus 25 anos de carreira e lança clipe com jatinho e lowriders

por Marcos Lauro em 27/05/2017

O funkeiro Mr. Catra está com pinta de gangster norte-americano no clipe lançado nessa sexta-feira (26/05). Com direção de DIG Jam, “Pepeka Chora” foi filmado num jatinho, na PanAm (boate do luxuoso hotel Maksoud Plaza, em São Paulo) e tem a participação de carros lowriders japoneses.

Catra precisou apelar para japoneses por não conseguiu o apoio de donos de lowriders locais. “Eu senti racismo da galera de lowrider aqui do Brasil, racismo com a minha cultura”, disse Catra em entrevista para a Billboard Brasil. Lowriders são conhecidos por estarem ligados a cultura hip-hop. “Tinha um representante dessa galera do Japão por aqui e consegui aproveitar... tive que apelar pro Japão porque a galera daqui foi racista comigo, irmão!”, complementou.

O funkeiro mudou a sua rotina por conta da empresa de agenciamento de artistas, a GR Shows, que funciona em São Paulo, na zona leste. Agora, Catra divide a sua atenção entre seus próprios shows e a carreira dos artistas que empresaria. “Agora eu participo mais do backstage, eu formo artistas novos. Tô fazendo um laboratório com a molecada, tipo futebol. Depois é só recolher no caixa. Funk é caixa 24 horas [risos]”, brinca o artista. Além desses novos artistas do funk, a GR vende shows de nomes já estabelecidos no samba, como o Samprazer e o Pixote.

Veja o clipe e leia abaixo o papo com Mr. Catra, que fala sobre a sua face de empresário, a opção pelo funk com letras explícitas e o seu relacionamento com os artistas mais jovens:

Como foi gravar esse clipe novo?
O clipe tem várias locações. Fechamos um hangar com jatinho, tá ligado? Fechamos a boate PanAm, do [hotel] Maksoud Plaza, e tem participação de lowriders de uma galera do Japão. Sabe porquê? Eu senti racismo da galera de lowrider aqui do Brasil, racismo com a minha cultura. Tinha um representante dessa galera do Japão por aqui e consegui aproveitar... tive que apelar pro Japão porque a galera daqui foi racista comigo, irmão!

O que é o proibidão pra você?
Lá no Rio tive que chamar a dona Vera Malaguti [socióloga e ex- Secretária-Geral do Instituto Carioca de Criminologia], Lino Batista [jurista], Orlando Zaccone [delegado de polícia]... falei: “Irmão, o funk é movimento de favela e a favela não sabe o que é proibidão. Eu quero que me expliquem o que é proibidão”. Proibiram o funk de fazer festas, acabaram com famílias! 200 mil empregos diretos, que indiretamente iam pra um milhão. Se você fizer uma conta de 10% desses que foram pro caminho errado, dá 100 mil bandidos na rua, irmão! Aí eu falei: chega de proibidão, eu vou é cantar putaria. E se todo poder é dado por Deus, muito obrigado, Senhor, por ser o Rei da Putaria [risos]. A minha música era muito política e a política tá muito suja, irmão, não dá pra se envolver com política. Eu não vou trocar o amor dos meus fãs por um cargo político que vai botar um ponto de interrogação em tudo o que eu fiz agora. Se eu virar político, vai ter derramamento de sangue.

Porquê?
Por causa da minha postura e do que eu vou querer propor. E por causa dessa sociedade que está corrompida. Corrompe os meios de comunicação, tudo.

Corrompeu a música também?
É igual futebol: acabaran os artistas que fazem por amor assim como os jogadores que jogam por amor ao time. Não tem mais o Garrincha no Botafogo, o Zico no Flamengo, Roberto Dinamite pelo Vasco, o Reinaldo pelo Atlético, tá ligado? Virou um bagulho muito estranho, parece que o amor pelas coisas se acabou. Eu faço música porque eu gosto. Eu gosto de cantar com todo mundo. Vou gravar um DVD com meus amigos do rock. E agora tá rolando uma outra proposta de funk, mais social. Mas sem deixar o sarcasmo e a putaria.

E já faz alguns meses que você está morando em São Paulo. Qual o motivo dessa mudança?
Hoje eu moro em São Paulo, o lance virou uma empresa. São Paulo pra empresa é melhor, dá até mais credibilidade nesse meio, tá ligado? Agora eu participo mais do backstage, eu formo artistas novos. Tô fazendo um laboratório com a molecada, tipo futebol. Depois é só recolher no caixa. Funk é caixa 24 horas [risos].

E como você divide o seu tempo? Ainda tem aquela pegada de cinco shows por noite?
Eu dei uma sossegada pra cuidar da rapaziada... não faço mais cinco shows por noite, agora dois, no máximo. Mas jogo junto com eles, só cruzamento sinistro [risos]. Tô botando geral na cara do gol.

E quais as diferenças entre o funk do Rio e o de São Paulo, além da sonoridade?
A organização, estrutura, união, cumplicidade dos MCs de São Paulo é muito grande. Mais até do que entre os escritórios de agenciamento, saca? É o maior barato isso... é uma cultura que a rapaziada fez. Eles não querem saber de que escritório é o moleque, eles querem se unir. E eu tenho coletividade com os moleques e isso me renova... é o maior barato estar com o MC Brinquedo, Gui, Pikachu, Don Juan. E é engraçado porque eu já sou tiozão, mas quando eu tô com eles, fica todo mundo igual. É o maior barato.

E eles te pedem conselhos?
Eu dou um papo sim. Principalmente sobre o proceder, tá ligado, no dia a dia, o lado empresarial, editorial... tem moleque que fica perdido. O funk não é mil maravilhas não, tem agência escravizando MC. O moleque faz 10, 15 shows e ganha um salário. O artista tem que ser sócio da sua carreira, não funcionário. O show do cara custa R$ 40 mil e ele ganha R$ 5 mil. E aí? Tem que ter uma conscientização das empresas, pra zelarem mais por seus artistas. O sucesso é consequência de uma boa carreira, uma hora vem.

E quando você começou, há 25 anos, qual era a sua meta?
Eu já atropelei a minha meta [risos]. 32 filhos, quatro mulheres, trabalhando... eu quero mais o quê, irmão? Eu tenho que ser igual o James Brown, né? Ele foi centroavante até 73 anos [risos]. É um dia atrás do outro. Cê vai lá e bota uma meta? Pô, cê não sabe o tamanho do universo! Cê não sabe a vontade do Senhor! Eu posso cantar qualquer estilo, mas eu sou funkeiro. Gosto de tudo, mas sou funkeiro. “Funkeiro Mr. Catra”, não é assim que me chamam? E eu vou viver a vida toda assim, mermão.

Você se lembra do seu primeiro contato com o funk? Como foi?
MC Cidinho, da Cidade de Deus [um dos intérpretes dos clássicos “Rap da Felicidade” e “Rap das Armas”, com MC Doca]. Por isso que um monstro só pode fazer outro, né [risos]? Ele falou: “Cê canta rap, rock... mas tu é funkeiro. Pode correr pra onde quiser, tu é funkeiro”. Aí um camarada veio tirar: “Qual é, negão, tu é artista?”. Tô aí até hoje [risos].

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Funkeiro reflete sobre seus 25 anos de carreira e lança clipe com jatinho e lowriders

por Marcos Lauro em 27/05/2017

O funkeiro Mr. Catra está com pinta de gangster norte-americano no clipe lançado nessa sexta-feira (26/05). Com direção de DIG Jam, “Pepeka Chora” foi filmado num jatinho, na PanAm (boate do luxuoso hotel Maksoud Plaza, em São Paulo) e tem a participação de carros lowriders japoneses.

Catra precisou apelar para japoneses por não conseguiu o apoio de donos de lowriders locais. “Eu senti racismo da galera de lowrider aqui do Brasil, racismo com a minha cultura”, disse Catra em entrevista para a Billboard Brasil. Lowriders são conhecidos por estarem ligados a cultura hip-hop. “Tinha um representante dessa galera do Japão por aqui e consegui aproveitar... tive que apelar pro Japão porque a galera daqui foi racista comigo, irmão!”, complementou.

O funkeiro mudou a sua rotina por conta da empresa de agenciamento de artistas, a GR Shows, que funciona em São Paulo, na zona leste. Agora, Catra divide a sua atenção entre seus próprios shows e a carreira dos artistas que empresaria. “Agora eu participo mais do backstage, eu formo artistas novos. Tô fazendo um laboratório com a molecada, tipo futebol. Depois é só recolher no caixa. Funk é caixa 24 horas [risos]”, brinca o artista. Além desses novos artistas do funk, a GR vende shows de nomes já estabelecidos no samba, como o Samprazer e o Pixote.

Veja o clipe e leia abaixo o papo com Mr. Catra, que fala sobre a sua face de empresário, a opção pelo funk com letras explícitas e o seu relacionamento com os artistas mais jovens:

Como foi gravar esse clipe novo?
O clipe tem várias locações. Fechamos um hangar com jatinho, tá ligado? Fechamos a boate PanAm, do [hotel] Maksoud Plaza, e tem participação de lowriders de uma galera do Japão. Sabe porquê? Eu senti racismo da galera de lowrider aqui do Brasil, racismo com a minha cultura. Tinha um representante dessa galera do Japão por aqui e consegui aproveitar... tive que apelar pro Japão porque a galera daqui foi racista comigo, irmão!

O que é o proibidão pra você?
Lá no Rio tive que chamar a dona Vera Malaguti [socióloga e ex- Secretária-Geral do Instituto Carioca de Criminologia], Lino Batista [jurista], Orlando Zaccone [delegado de polícia]... falei: “Irmão, o funk é movimento de favela e a favela não sabe o que é proibidão. Eu quero que me expliquem o que é proibidão”. Proibiram o funk de fazer festas, acabaram com famílias! 200 mil empregos diretos, que indiretamente iam pra um milhão. Se você fizer uma conta de 10% desses que foram pro caminho errado, dá 100 mil bandidos na rua, irmão! Aí eu falei: chega de proibidão, eu vou é cantar putaria. E se todo poder é dado por Deus, muito obrigado, Senhor, por ser o Rei da Putaria [risos]. A minha música era muito política e a política tá muito suja, irmão, não dá pra se envolver com política. Eu não vou trocar o amor dos meus fãs por um cargo político que vai botar um ponto de interrogação em tudo o que eu fiz agora. Se eu virar político, vai ter derramamento de sangue.

Porquê?
Por causa da minha postura e do que eu vou querer propor. E por causa dessa sociedade que está corrompida. Corrompe os meios de comunicação, tudo.

Corrompeu a música também?
É igual futebol: acabaran os artistas que fazem por amor assim como os jogadores que jogam por amor ao time. Não tem mais o Garrincha no Botafogo, o Zico no Flamengo, Roberto Dinamite pelo Vasco, o Reinaldo pelo Atlético, tá ligado? Virou um bagulho muito estranho, parece que o amor pelas coisas se acabou. Eu faço música porque eu gosto. Eu gosto de cantar com todo mundo. Vou gravar um DVD com meus amigos do rock. E agora tá rolando uma outra proposta de funk, mais social. Mas sem deixar o sarcasmo e a putaria.

E já faz alguns meses que você está morando em São Paulo. Qual o motivo dessa mudança?
Hoje eu moro em São Paulo, o lance virou uma empresa. São Paulo pra empresa é melhor, dá até mais credibilidade nesse meio, tá ligado? Agora eu participo mais do backstage, eu formo artistas novos. Tô fazendo um laboratório com a molecada, tipo futebol. Depois é só recolher no caixa. Funk é caixa 24 horas [risos].

E como você divide o seu tempo? Ainda tem aquela pegada de cinco shows por noite?
Eu dei uma sossegada pra cuidar da rapaziada... não faço mais cinco shows por noite, agora dois, no máximo. Mas jogo junto com eles, só cruzamento sinistro [risos]. Tô botando geral na cara do gol.

E quais as diferenças entre o funk do Rio e o de São Paulo, além da sonoridade?
A organização, estrutura, união, cumplicidade dos MCs de São Paulo é muito grande. Mais até do que entre os escritórios de agenciamento, saca? É o maior barato isso... é uma cultura que a rapaziada fez. Eles não querem saber de que escritório é o moleque, eles querem se unir. E eu tenho coletividade com os moleques e isso me renova... é o maior barato estar com o MC Brinquedo, Gui, Pikachu, Don Juan. E é engraçado porque eu já sou tiozão, mas quando eu tô com eles, fica todo mundo igual. É o maior barato.

E eles te pedem conselhos?
Eu dou um papo sim. Principalmente sobre o proceder, tá ligado, no dia a dia, o lado empresarial, editorial... tem moleque que fica perdido. O funk não é mil maravilhas não, tem agência escravizando MC. O moleque faz 10, 15 shows e ganha um salário. O artista tem que ser sócio da sua carreira, não funcionário. O show do cara custa R$ 40 mil e ele ganha R$ 5 mil. E aí? Tem que ter uma conscientização das empresas, pra zelarem mais por seus artistas. O sucesso é consequência de uma boa carreira, uma hora vem.

E quando você começou, há 25 anos, qual era a sua meta?
Eu já atropelei a minha meta [risos]. 32 filhos, quatro mulheres, trabalhando... eu quero mais o quê, irmão? Eu tenho que ser igual o James Brown, né? Ele foi centroavante até 73 anos [risos]. É um dia atrás do outro. Cê vai lá e bota uma meta? Pô, cê não sabe o tamanho do universo! Cê não sabe a vontade do Senhor! Eu posso cantar qualquer estilo, mas eu sou funkeiro. Gosto de tudo, mas sou funkeiro. “Funkeiro Mr. Catra”, não é assim que me chamam? E eu vou viver a vida toda assim, mermão.

Você se lembra do seu primeiro contato com o funk? Como foi?
MC Cidinho, da Cidade de Deus [um dos intérpretes dos clássicos “Rap da Felicidade” e “Rap das Armas”, com MC Doca]. Por isso que um monstro só pode fazer outro, né [risos]? Ele falou: “Cê canta rap, rock... mas tu é funkeiro. Pode correr pra onde quiser, tu é funkeiro”. Aí um camarada veio tirar: “Qual é, negão, tu é artista?”. Tô aí até hoje [risos].