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Dughettu: “O rap é o som mais presente da atualidade”

Rapper fala sobre música e questões raciais

por Marcos Lauro em 24/08/2016

O rapper Dughettu lançou em dezembro de 2015 a música “112/111 (Gueto Clama)”, que se refere ao crime ocorrido um mês antes que vitimou cinco jovens negros entre 16 e 20 anos na zona norte do Rio de Janeiro. O carro em que eles estavam foi atingido por 111 tiros disparados por policiais militares.

A música acabou se tornando um símbolo dos protestos contra esse ato, ganhou um site multimídia e também uma ação em que um automóvel circulou pelas ruas do Rio de Janeiro com 111 perfurações. E o tema, infelizmente, continua atual.

A Billboard Brasil conversou com Dughettu:

“112/111 (Gueto Clama)” foi lançada em dezembro de 2015 e o tema continua atual – o próprio caso citado pela música ainda tem desdobramentos. Você vê uma saída?
Eu acredito que não tenha a ver com achar uma saída, mas sim assumirmos que é uma  grande jornada. Falar de violência dentro desse recorte, principalmente de violência urbana, é um grande desafio. Achar que existe uma saída chega a ser ingênuo. Temos uma grande estrada para percorrer, estrada essa que precisa cada vez mais levar em consideração a origem desse problema, as pessoas que estão nessa linha de risco, os próprios contextos sociais, econômicos e culturais.  A grande sacada é construir junto com a sociedade civil, poder público, mídia e empresas o desejo genuíno de tornar essa travessia menos letal. Pararmos de ser uma sociedade que trata tudo na superficialidade e irmos fundo. Agirmos de dentro para fora!

Os EUA vivem períodos de intensa luta racial. Você tem acompanhado? Acha que o problema é parecido com o daqui ou há diferenças?
Acredito que existem pontos de similaridade porque o recorte da violência nos Estados Unidos ainda é racial assim como no Brasil. Nos Estados Unidos existem uma consciência coletiva e um movimento muito mais estruturado pra lidar com essa temática, seja por parte da sociedade, dos artistas, da política e até da mídia, e aqui esse tema ainda é muito pontual. Você tem uma série de crimes que as estáticas e jornais mostram a cor e o CEP de quem morreu. Eu acredito que os desafios do Brasil são de um país que ainda tem uma falsa democracia racial, que ainda tem dificuldade de tratar do tema racismo como tema cotidiano e tomar as medidas necessárias para diminuir esses índices. Falta também um nível de conhecimento da população negra sobre esse contexto de violência, ainda é muito racista, caricata e folclórica a visão da sociedade sobre o tema. Na América apesar de todos os avanços que a comunidade negra teve, ainda choca a Beyoncé dizer que é negra e fazer uma performance na final do Super Bowl levantando essa questão racial no país.

Assim como o MV Bill, que é da Cidade de Deus, você mantém a linha de um rap mais preocupado com o social. Há uma linha de artistas aproximando o rap do pop, com sons e temas mais leves. Você acompanha essa cena também? O que acha?
Meu rap não tem uma preocupação social, ele tem uma consequência social. Eu não faço rap com o intuito de tentar diretamente enviar uma mensagem ou ser representante de algum movimento, faço porque é um gênero musical que acredito, respeito e quero impulsionar. Acho que usar o social somente como tema das músicas é muito limitador. Hoje a gente é capaz de atingir outros públicos, outras pessoas usando outras linguagens de arte. Existem várias maneiras de tocar a sociedade e eu tenho muitas outras ferramentas pra passar essa informação e ser provocativo. Você não precisa mais só da música pra expressar o que você pensa e um exemplo disso é a própria Beyoncé, que utilizou um clipe pra marcar a herança negra dela, a questão da escravidão etc. O próprio Emicida que aborda esse tema de maneira direta e ácida, e o Criolo que de maneira sofisticada dá vários tapas com sua estética sonora e seu posicionamento como artista. Temos que virar o leme e começar a buscar acúmulo de capital, o acesso a posições no mercado profissional e a inserção de novos protagonistas, em esferas de liderança do poder público. Evoluirmos num cenário mais amplo de representatividade e poder. É isso que tento fazer um pouco com o meu som e meus movimentos. Para mim o rap é o som mais presente da atualidade e minha sigla pra ele é “Produto Original Preto”, e essa é a verdadeira tradução do mercado “pop”.

O rap norte americano (com caras como YG e Schooboy Q) e até o pop (Beyoncé) têm batido forte no assunto racismo. O que você tem ouvido nesse sentido?
Se formos para o cenário internacional, indiscutivelmente Kendrick Lamar e J.Cole são dois rappers que nesse momento vem se posicionando de maneira muito contundente sobre essa temática. Primeiro, criando uma relação com o bairro, com território, com a área e fazendo disso não só um jargão, mas um instrumento de atitude, movimento e transformação. Quando J.Cole faz a capa do disco dele sentado no telhado da casa onde morou quando tinha 14 anos, ele cria um simbolismo muito grande, resgata toda uma relação de história e de vivência e mostra aonde a música dele pode chegar. Já o Kendrick Lammar provoca num outro contexto, muito similar ao dele, mas com um discurso sobre os problemas na área dele e conectada com o mundo, abordando temas globais, como as guerras de gangues, conflitos familiares, drogas e poder. Ele usa isso como uma iconografia estética nos clipes e conseguiu levar para o Grammy a melhor performance dos últimos 10 anos dentro da premiação. Acredito que tudo isso somado constrói um cenário positivo e muito estimulante para os novos artistas. Trazendo para a esfera do Brasil, sem dúvidas o Racionais é o grande expoente dessa temática racial, e vai continuar sendo por muito tempo porque ele está além da música e já virou quase que uma instituição brasileira da rua. Mas quero citar também o Antiéticos, um trio da minha cidade, Rio de Janeiro, que vem tratando a temática da racial de uma maneira muito potente. São artistas que estou tendo a oportunidade de trabalhar e acompanhar o desenvolvimento e que avançam no front da nova geração do rap.

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Wesley Safadão
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Bruno & Marrone
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Naiara Azevedo
5
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Dughettu: “O rap é o som mais presente da atualidade”

Rapper fala sobre música e questões raciais

por Marcos Lauro em 24/08/2016

O rapper Dughettu lançou em dezembro de 2015 a música “112/111 (Gueto Clama)”, que se refere ao crime ocorrido um mês antes que vitimou cinco jovens negros entre 16 e 20 anos na zona norte do Rio de Janeiro. O carro em que eles estavam foi atingido por 111 tiros disparados por policiais militares.

A música acabou se tornando um símbolo dos protestos contra esse ato, ganhou um site multimídia e também uma ação em que um automóvel circulou pelas ruas do Rio de Janeiro com 111 perfurações. E o tema, infelizmente, continua atual.

A Billboard Brasil conversou com Dughettu:

“112/111 (Gueto Clama)” foi lançada em dezembro de 2015 e o tema continua atual – o próprio caso citado pela música ainda tem desdobramentos. Você vê uma saída?
Eu acredito que não tenha a ver com achar uma saída, mas sim assumirmos que é uma  grande jornada. Falar de violência dentro desse recorte, principalmente de violência urbana, é um grande desafio. Achar que existe uma saída chega a ser ingênuo. Temos uma grande estrada para percorrer, estrada essa que precisa cada vez mais levar em consideração a origem desse problema, as pessoas que estão nessa linha de risco, os próprios contextos sociais, econômicos e culturais.  A grande sacada é construir junto com a sociedade civil, poder público, mídia e empresas o desejo genuíno de tornar essa travessia menos letal. Pararmos de ser uma sociedade que trata tudo na superficialidade e irmos fundo. Agirmos de dentro para fora!

Os EUA vivem períodos de intensa luta racial. Você tem acompanhado? Acha que o problema é parecido com o daqui ou há diferenças?
Acredito que existem pontos de similaridade porque o recorte da violência nos Estados Unidos ainda é racial assim como no Brasil. Nos Estados Unidos existem uma consciência coletiva e um movimento muito mais estruturado pra lidar com essa temática, seja por parte da sociedade, dos artistas, da política e até da mídia, e aqui esse tema ainda é muito pontual. Você tem uma série de crimes que as estáticas e jornais mostram a cor e o CEP de quem morreu. Eu acredito que os desafios do Brasil são de um país que ainda tem uma falsa democracia racial, que ainda tem dificuldade de tratar do tema racismo como tema cotidiano e tomar as medidas necessárias para diminuir esses índices. Falta também um nível de conhecimento da população negra sobre esse contexto de violência, ainda é muito racista, caricata e folclórica a visão da sociedade sobre o tema. Na América apesar de todos os avanços que a comunidade negra teve, ainda choca a Beyoncé dizer que é negra e fazer uma performance na final do Super Bowl levantando essa questão racial no país.

Assim como o MV Bill, que é da Cidade de Deus, você mantém a linha de um rap mais preocupado com o social. Há uma linha de artistas aproximando o rap do pop, com sons e temas mais leves. Você acompanha essa cena também? O que acha?
Meu rap não tem uma preocupação social, ele tem uma consequência social. Eu não faço rap com o intuito de tentar diretamente enviar uma mensagem ou ser representante de algum movimento, faço porque é um gênero musical que acredito, respeito e quero impulsionar. Acho que usar o social somente como tema das músicas é muito limitador. Hoje a gente é capaz de atingir outros públicos, outras pessoas usando outras linguagens de arte. Existem várias maneiras de tocar a sociedade e eu tenho muitas outras ferramentas pra passar essa informação e ser provocativo. Você não precisa mais só da música pra expressar o que você pensa e um exemplo disso é a própria Beyoncé, que utilizou um clipe pra marcar a herança negra dela, a questão da escravidão etc. O próprio Emicida que aborda esse tema de maneira direta e ácida, e o Criolo que de maneira sofisticada dá vários tapas com sua estética sonora e seu posicionamento como artista. Temos que virar o leme e começar a buscar acúmulo de capital, o acesso a posições no mercado profissional e a inserção de novos protagonistas, em esferas de liderança do poder público. Evoluirmos num cenário mais amplo de representatividade e poder. É isso que tento fazer um pouco com o meu som e meus movimentos. Para mim o rap é o som mais presente da atualidade e minha sigla pra ele é “Produto Original Preto”, e essa é a verdadeira tradução do mercado “pop”.

O rap norte americano (com caras como YG e Schooboy Q) e até o pop (Beyoncé) têm batido forte no assunto racismo. O que você tem ouvido nesse sentido?
Se formos para o cenário internacional, indiscutivelmente Kendrick Lamar e J.Cole são dois rappers que nesse momento vem se posicionando de maneira muito contundente sobre essa temática. Primeiro, criando uma relação com o bairro, com território, com a área e fazendo disso não só um jargão, mas um instrumento de atitude, movimento e transformação. Quando J.Cole faz a capa do disco dele sentado no telhado da casa onde morou quando tinha 14 anos, ele cria um simbolismo muito grande, resgata toda uma relação de história e de vivência e mostra aonde a música dele pode chegar. Já o Kendrick Lammar provoca num outro contexto, muito similar ao dele, mas com um discurso sobre os problemas na área dele e conectada com o mundo, abordando temas globais, como as guerras de gangues, conflitos familiares, drogas e poder. Ele usa isso como uma iconografia estética nos clipes e conseguiu levar para o Grammy a melhor performance dos últimos 10 anos dentro da premiação. Acredito que tudo isso somado constrói um cenário positivo e muito estimulante para os novos artistas. Trazendo para a esfera do Brasil, sem dúvidas o Racionais é o grande expoente dessa temática racial, e vai continuar sendo por muito tempo porque ele está além da música e já virou quase que uma instituição brasileira da rua. Mas quero citar também o Antiéticos, um trio da minha cidade, Rio de Janeiro, que vem tratando a temática da racial de uma maneira muito potente. São artistas que estou tendo a oportunidade de trabalhar e acompanhar o desenvolvimento e que avançam no front da nova geração do rap.