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Em novo álbum, Galanga Livre, Rincon Sapiência faz jus ao sobrenome

Rapper lançou o trabalho na última quinta-feira, 25

por Ronald Rios em 27/05/2017

Rincon Sapiência é um sábio. Melhor, um estudioso. Constante. Não daqueles que querem falar que sabem apenas por autoafirmação. Mas daqueles que entendem e sentem os assuntos e precisam falar para os que não sabem. Para os que estavam perdidos, se encontrarem. “Now if you don't know, now you know”, como cantava Notorious BIG. E é assim que ouço sua música. Como uma aula de ideias e ritmos.

Seu trampo é rap real com várias punchlines contundentes. Ele abre o disco fazendo uma narrativa fictícia em primeira pessoa sobre o escravo Galanga que corre a milhão pela mata depois de matar o seu Senhor do Engenho. Enquanto corre fugindo dos capatazes, reflete: "Fugido eu tô correndo pela mata / Na pele eu levo a marca da tortura / O crime deixa doido o bagulho / Carrego um pouco de medo e orgulho". Tudo isso num beat aceleradíssimo e você consegue ver esse filme que Rincon está montando para você. Tanto pela letra quanto pela bateria que te coloca e frenesi.

COMPOSITOR, RAPPER, PRODUTOR… CONHEÇA O POLIVALENTE RINCON SAPIÊNCIA

Uma coisa da música do Rincon que eu gosto demais é a mistura com outros elementos – que é o que forma a identidade do rap nacional. Isso não vem de hoje no trabalho dele. O EP S P Gueto B R já tinha muito disso. Rock, samba, soul, funk – tanto o carioca quanto o tradicional norte-americano –, música africana, o que você quiser. Em Galanga Livre, tem o batidão pesado de tremer janela em "Moça Namoradeira" acompanhado do sampler de Lia de Itamaracá. É tão bem equilibrada essa produção e o flow é no ponto: é hip-hop e é nosso! Não é copiado da batida espaçada do West Coast nem do boombap novaiorquino e muito menos dessa moda do trap: nada disso, é rap br. Tão br quanto rap. Não fica piegas como podem ficar as misturas em excesso com rap. Fica no ponto certo. Fica na essência do sampler ou no refrão mezzo samba mezzo R&B – e acima de tudo: música preta. "A Noite é Nossa" é aquele rap que dá vontade de pegar sua branca, sua preta, sua ruiva, sua japonesa, chinesa, o que for, e sair de rolê. De sair abraçada com seu gatinho. Ou seja lá a companhia que sua orientação pede, capisce? Mas ó: com maior orgulho.

Orgulho que fez Rincon tirar onda no videoclipe de "Meu Bloco", outra mistura pesada, dessa vez de repique com uns metais marcantes e uma programação de bateria que não deveria ser ouvida fora do máximo volume - desculpa, vizinhos.

RINCON SAPIÊNCIA LANÇA CLIPE DE “A COISA TÁ PRETA”; ASSISTA

Ele sabe que tira onda – muito por saber que tem história, talento e repertório como respaldo para tirar mais onda que o Gabriel Medina. "Sambo na cara tipo Mestre-Sala", "tô na rua com os camaradas, não é só pelos camarim", "se a liberdade é contra a lei, meu conteúdo é ilícito". Isso são rimas de alguém que injeta autoestima na sua corrente. Isso são rimas de alguém confiante. E nada mais bonito que alguém confiante. Confiante, não prepotente.

"A Coisa Tá Preta" deve ser transformada oficialmente na frase para quando a cena tá favorável. Rincon fez um rap pesado, com groove, com musicalidade preta, exigindo respeito.

THAÍDE JUNTA GRANDE TIME DO HIP-HOP NACIONAL EM “STILO”

"Sangue de escravo não, pulei / Vou um pouco mais longe, sangue de rei"

E essa ponte é maravilhosa:

“Se eu te falar que a coisa tá preta / A coisa ta boa, pode acreditar / Seu preconceito vai arrumar treta / Sai dessa garoa que é pra não moiá”.

A música é um ataque duplo: tem um refrão e pancada perfeitos para tocar na mais animada das festas e ao mesmo tempo serve como lição de mil grau no fone do seu celular no caminho para o trampo ou pra escola.

O mesmo vale pro disco inteiro. Enquanto vai tocando "Ponta de Lança" aqui, concluo nossa conversa: Rincon é como um show do Dave Chappelle, os desenhos Boondocks / Black Dynamite ou a premiada série Atlanta: ele pode ser cheio do mais sacana e ácido senso de humor mas não confunda "ser engraçado" com "estar de gracinha". Assim como os exemplos humorísticos que citei, Rincon faz suas punchline dentro dum contexto pesado de trocação de ideia a mil por hora. De falar o que é ser preto no Brasil com orgulho. De clamar seu espaço. De reclamar, de tirar onda com os canalhas que ferram nosso país, que ferram os pretos... e sempre com uma ideia que te grude na cabeça. Rincon é razão pela qual eu amo Racionais MC's desde Sobrevivendo no Inferno.

E como se não bastasse, Rincon encerra o disco colocando a barra do rap lá em cima aos seus contemporâneos com sincera irreverência:

Ai ai ai, quando eu havia gravado a "Linhas de Soco" eu falei: "Pô, eu tô pra ouvir um bagulho que nem esse".

Quem quer, faz. Quem não quer, manda. Rincon fez.

Ouça Galanga Livre:

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Rapper lançou o trabalho na última quinta-feira, 25

por Ronald Rios em 27/05/2017

Rincon Sapiência é um sábio. Melhor, um estudioso. Constante. Não daqueles que querem falar que sabem apenas por autoafirmação. Mas daqueles que entendem e sentem os assuntos e precisam falar para os que não sabem. Para os que estavam perdidos, se encontrarem. “Now if you don't know, now you know”, como cantava Notorious BIG. E é assim que ouço sua música. Como uma aula de ideias e ritmos.

Seu trampo é rap real com várias punchlines contundentes. Ele abre o disco fazendo uma narrativa fictícia em primeira pessoa sobre o escravo Galanga que corre a milhão pela mata depois de matar o seu Senhor do Engenho. Enquanto corre fugindo dos capatazes, reflete: "Fugido eu tô correndo pela mata / Na pele eu levo a marca da tortura / O crime deixa doido o bagulho / Carrego um pouco de medo e orgulho". Tudo isso num beat aceleradíssimo e você consegue ver esse filme que Rincon está montando para você. Tanto pela letra quanto pela bateria que te coloca e frenesi.

COMPOSITOR, RAPPER, PRODUTOR… CONHEÇA O POLIVALENTE RINCON SAPIÊNCIA

Uma coisa da música do Rincon que eu gosto demais é a mistura com outros elementos – que é o que forma a identidade do rap nacional. Isso não vem de hoje no trabalho dele. O EP S P Gueto B R já tinha muito disso. Rock, samba, soul, funk – tanto o carioca quanto o tradicional norte-americano –, música africana, o que você quiser. Em Galanga Livre, tem o batidão pesado de tremer janela em "Moça Namoradeira" acompanhado do sampler de Lia de Itamaracá. É tão bem equilibrada essa produção e o flow é no ponto: é hip-hop e é nosso! Não é copiado da batida espaçada do West Coast nem do boombap novaiorquino e muito menos dessa moda do trap: nada disso, é rap br. Tão br quanto rap. Não fica piegas como podem ficar as misturas em excesso com rap. Fica no ponto certo. Fica na essência do sampler ou no refrão mezzo samba mezzo R&B – e acima de tudo: música preta. "A Noite é Nossa" é aquele rap que dá vontade de pegar sua branca, sua preta, sua ruiva, sua japonesa, chinesa, o que for, e sair de rolê. De sair abraçada com seu gatinho. Ou seja lá a companhia que sua orientação pede, capisce? Mas ó: com maior orgulho.

Orgulho que fez Rincon tirar onda no videoclipe de "Meu Bloco", outra mistura pesada, dessa vez de repique com uns metais marcantes e uma programação de bateria que não deveria ser ouvida fora do máximo volume - desculpa, vizinhos.

RINCON SAPIÊNCIA LANÇA CLIPE DE “A COISA TÁ PRETA”; ASSISTA

Ele sabe que tira onda – muito por saber que tem história, talento e repertório como respaldo para tirar mais onda que o Gabriel Medina. "Sambo na cara tipo Mestre-Sala", "tô na rua com os camaradas, não é só pelos camarim", "se a liberdade é contra a lei, meu conteúdo é ilícito". Isso são rimas de alguém que injeta autoestima na sua corrente. Isso são rimas de alguém confiante. E nada mais bonito que alguém confiante. Confiante, não prepotente.

"A Coisa Tá Preta" deve ser transformada oficialmente na frase para quando a cena tá favorável. Rincon fez um rap pesado, com groove, com musicalidade preta, exigindo respeito.

THAÍDE JUNTA GRANDE TIME DO HIP-HOP NACIONAL EM “STILO”

"Sangue de escravo não, pulei / Vou um pouco mais longe, sangue de rei"

E essa ponte é maravilhosa:

“Se eu te falar que a coisa tá preta / A coisa ta boa, pode acreditar / Seu preconceito vai arrumar treta / Sai dessa garoa que é pra não moiá”.

A música é um ataque duplo: tem um refrão e pancada perfeitos para tocar na mais animada das festas e ao mesmo tempo serve como lição de mil grau no fone do seu celular no caminho para o trampo ou pra escola.

O mesmo vale pro disco inteiro. Enquanto vai tocando "Ponta de Lança" aqui, concluo nossa conversa: Rincon é como um show do Dave Chappelle, os desenhos Boondocks / Black Dynamite ou a premiada série Atlanta: ele pode ser cheio do mais sacana e ácido senso de humor mas não confunda "ser engraçado" com "estar de gracinha". Assim como os exemplos humorísticos que citei, Rincon faz suas punchline dentro dum contexto pesado de trocação de ideia a mil por hora. De falar o que é ser preto no Brasil com orgulho. De clamar seu espaço. De reclamar, de tirar onda com os canalhas que ferram nosso país, que ferram os pretos... e sempre com uma ideia que te grude na cabeça. Rincon é razão pela qual eu amo Racionais MC's desde Sobrevivendo no Inferno.

E como se não bastasse, Rincon encerra o disco colocando a barra do rap lá em cima aos seus contemporâneos com sincera irreverência:

Ai ai ai, quando eu havia gravado a "Linhas de Soco" eu falei: "Pô, eu tô pra ouvir um bagulho que nem esse".

Quem quer, faz. Quem não quer, manda. Rincon fez.

Ouça Galanga Livre: