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Filme mostra axé music muito além dos preconceitos

Documentário conta história do gênero que dominou o mercado entre os anos 1990 e 2000

por Marcos Lauro em 18/01/2017

O termo “axé music” nasceu de um preconceito. Era uma forma pejorativa, criada pela crítica musical, de tratar a música produzida na Bahia e que movimentava milhões (de pessoas e em dinheiro). Já vimos esse filme antes: o termo “funk” também era pejorativo, até ser usado pelos próprios artistas negros nos Estados Unidos nos anos 1970, virar o jogo e se tornar um gênero musical. E foi o que aconteceu na Bahia: o termo pegou e começou a ser usado pelo mercado. Se era axé que a crítica musical queria, era axé que teria. E não era pouco não, era muito axé.

O documentário Axé: Canto do Povo de um Lugar, de Chico Kertész, mostra, de forma bastante didática, toda a trajetória do movimento, da sua criação espontânea em cima dos trios elétricos e pelas ladeiras baianas, ainda no final dos anos 1970, passando pelo sucesso absoluto entre 1990 e 2000 até o estado atual das coisas. “O fogo nunca vai se apagar totalmente”, diz o maestro Letieres Leite numa das mais de 60 entrevistas realizadas para o longa.

Como acontece em todo movimento cultural popular, o conhecimento é transmitido oralmente, nas ruas. A cada ensaio, a cada desfile de bloco e a cada encontro de músicos, os sons eram criados e, dali, partiam para a boca dos populares. Isso dificulta um pouco a documentação do processo e o filme vai contando a história de forma cronológica respeitando os anos em que as músicas ganharam suas versões gravadas – por isso não é raro o documentário falar, por exemplo, do final dos anos 1980 e voltar para o início da década para complementar a história. A história de um movimento cultural popular tão grande quanto a axé music é viva e o longa consegue transmitir isso.

Gostando ou não do gênero, não é difícil se arrepiar ao ver o longa. Seja pelas imagens das multidões, pela força das composições ou pelos tambores do Olodum – a pessoa mais fria do mundo se arrepia ao ouvir o toque do grupo, faça o teste.

Todo movimento de massa atrai uma enorme onda de preconceito – vide o sertanejo de hoje, que muita gente afirma que não gosta sem ao menos ouvir. Com o axé foi igual. Nos anos 1990, não havia TV, rádio ou jornal que quisesse alcançar o grande público sem falar dos artistas e das músicas do movimento. E a massificação, como afirmam diversos entrevistados, era alimentada sem nenhum tipo de freio ou planejamento por parte dos empresários dos artistas e trios elétricos. Como é de costume no Brasil, queria-se ganhar tudo o mais rápido possível. Mesmo assim, o axé aguentou ficar no topo por mais de uma década – seus rivais, por longos períodos, foram o pagode paulista e o funk/charm carioca. Com um diferencial: o axé era um gênero ligado a um período específico do ano, o carnaval. Então, verão após verão, mesmo que o axé tivesse caído durante o meio do ano, voltava com tudo, com novas músicas, novos nomes e novas coreografias – essa última parte mais reforçada por grupos como É O Tchan. “A Bahia era um estado disfarçado de gravadora”, diz um dos entrevistados.

Além da massificação, outra característica retratada no filme é a transformação do movimento cultural em indústria. O que era um movimento de rua e blocos afro se tornou uma fábrica de estrelas e hits baseada nos trios elétricos. Os trios se tornaram maiores do que muitos artistas, trocando de bandas de carnaval em carnaval. Os entrevistados discordam se isso foi positivo ou negativo para o movimento. Enquanto uns encaram como profissionalização, outros tratam como o fim da raiz, dos batuques afro e da força do povo como protagonista. O longa deixa essa interpretação em aberto para a conclusão do espectador.

De Luiz Caldas, “o primeiro filho do axé” segundo Caetano Veloso, a Saulo Fernandes, o longa mostra sucessos de Olodum, Ara Ketu, Asa de Águia, Banda Mel, Banda Reflexos, Chiclete Com Banana, Claudia Leitte, É o Tchan/Gera Samba, Netinho, Olodum, Ricardo Chaves, Sarajane, Psirico, Terrasamba, Timbalada e Xandy, entre outros. Quem viveu a época vai se lembrar dos hits no rádio. Quem não viveu, vai sentir uma pontinha de vontade de passar o próximo Carnaval em Salvador – mesmo que o axé de hoje não represente mais a grandeza que o movimento já teve.

Abaixo, uma playlist com mais de cinco horas de axé, só com as músicas que aparecem no documentário:

  • HOT 100
    BRASIL
  • BILLBOARD
    200
  • HOT 100
    EUA
1
Ar-Condicionado No 15
Wesley Safadão
Áudio indisponível
2
Regime Fechado
Simone & Simaria
3
Avisa Que Eu Cheguei (Part. Ivete Sangalo)
Naiara Azevedo
4
Na Conta Da Loucura
Bruno & Marrone
5
Amigo Taxista
Zé Neto & Cristiano
RANKING COMPLETO
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Filme mostra axé music muito além dos preconceitos

Documentário conta história do gênero que dominou o mercado entre os anos 1990 e 2000

por Marcos Lauro em 18/01/2017

O termo “axé music” nasceu de um preconceito. Era uma forma pejorativa, criada pela crítica musical, de tratar a música produzida na Bahia e que movimentava milhões (de pessoas e em dinheiro). Já vimos esse filme antes: o termo “funk” também era pejorativo, até ser usado pelos próprios artistas negros nos Estados Unidos nos anos 1970, virar o jogo e se tornar um gênero musical. E foi o que aconteceu na Bahia: o termo pegou e começou a ser usado pelo mercado. Se era axé que a crítica musical queria, era axé que teria. E não era pouco não, era muito axé.

O documentário Axé: Canto do Povo de um Lugar, de Chico Kertész, mostra, de forma bastante didática, toda a trajetória do movimento, da sua criação espontânea em cima dos trios elétricos e pelas ladeiras baianas, ainda no final dos anos 1970, passando pelo sucesso absoluto entre 1990 e 2000 até o estado atual das coisas. “O fogo nunca vai se apagar totalmente”, diz o maestro Letieres Leite numa das mais de 60 entrevistas realizadas para o longa.

Como acontece em todo movimento cultural popular, o conhecimento é transmitido oralmente, nas ruas. A cada ensaio, a cada desfile de bloco e a cada encontro de músicos, os sons eram criados e, dali, partiam para a boca dos populares. Isso dificulta um pouco a documentação do processo e o filme vai contando a história de forma cronológica respeitando os anos em que as músicas ganharam suas versões gravadas – por isso não é raro o documentário falar, por exemplo, do final dos anos 1980 e voltar para o início da década para complementar a história. A história de um movimento cultural popular tão grande quanto a axé music é viva e o longa consegue transmitir isso.

Gostando ou não do gênero, não é difícil se arrepiar ao ver o longa. Seja pelas imagens das multidões, pela força das composições ou pelos tambores do Olodum – a pessoa mais fria do mundo se arrepia ao ouvir o toque do grupo, faça o teste.

Todo movimento de massa atrai uma enorme onda de preconceito – vide o sertanejo de hoje, que muita gente afirma que não gosta sem ao menos ouvir. Com o axé foi igual. Nos anos 1990, não havia TV, rádio ou jornal que quisesse alcançar o grande público sem falar dos artistas e das músicas do movimento. E a massificação, como afirmam diversos entrevistados, era alimentada sem nenhum tipo de freio ou planejamento por parte dos empresários dos artistas e trios elétricos. Como é de costume no Brasil, queria-se ganhar tudo o mais rápido possível. Mesmo assim, o axé aguentou ficar no topo por mais de uma década – seus rivais, por longos períodos, foram o pagode paulista e o funk/charm carioca. Com um diferencial: o axé era um gênero ligado a um período específico do ano, o carnaval. Então, verão após verão, mesmo que o axé tivesse caído durante o meio do ano, voltava com tudo, com novas músicas, novos nomes e novas coreografias – essa última parte mais reforçada por grupos como É O Tchan. “A Bahia era um estado disfarçado de gravadora”, diz um dos entrevistados.

Além da massificação, outra característica retratada no filme é a transformação do movimento cultural em indústria. O que era um movimento de rua e blocos afro se tornou uma fábrica de estrelas e hits baseada nos trios elétricos. Os trios se tornaram maiores do que muitos artistas, trocando de bandas de carnaval em carnaval. Os entrevistados discordam se isso foi positivo ou negativo para o movimento. Enquanto uns encaram como profissionalização, outros tratam como o fim da raiz, dos batuques afro e da força do povo como protagonista. O longa deixa essa interpretação em aberto para a conclusão do espectador.

De Luiz Caldas, “o primeiro filho do axé” segundo Caetano Veloso, a Saulo Fernandes, o longa mostra sucessos de Olodum, Ara Ketu, Asa de Águia, Banda Mel, Banda Reflexos, Chiclete Com Banana, Claudia Leitte, É o Tchan/Gera Samba, Netinho, Olodum, Ricardo Chaves, Sarajane, Psirico, Terrasamba, Timbalada e Xandy, entre outros. Quem viveu a época vai se lembrar dos hits no rádio. Quem não viveu, vai sentir uma pontinha de vontade de passar o próximo Carnaval em Salvador – mesmo que o axé de hoje não represente mais a grandeza que o movimento já teve.

Abaixo, uma playlist com mais de cinco horas de axé, só com as músicas que aparecem no documentário: