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Leo Jaime: “Desrespeitar as convenções é uma das essências do rock and roll”

Em turnê de volta às origens, músico sente falta de artistas que desafiem as convenções

Quando Leo Jamie mudou-se de Goiânia para o Rio de Janeiro, no final dos anos 1970, a cena de rock no Brasil era outra. Sob o apelido de “Leo Ganabara“, o cantor começou a cantar com uma banda de nome curioso, João Penca e Seus Miquinhos Amestrados, para, em 1983, lançar seu primeiro disco, o Phodas C.

“Não havia perspectiva de que isso poderia virar uma profissão, a gente era de um segmento que não tinha representatividade nenhuma, né?“, relembra o músico, hoje aos 56 anos. “A gente começou a fazer porque gostávamos, sem nos importar muito se ia dar certo ou não”.

O goiano, que participa do programa Papo de Segunda, no canal GNT, tirou 2016 para voltar a priorizar a música com a turnê Leo ‘Guanabara Jaime. Ele quer voltar às origens, no tempo em que ia à praia com a Marina Lima e via Herbert Vianna levar a bateria de João Barone para os shows em seu fusca.

Em entrevista à Billboard Brasil, Leo Jaime falou do novo momento, sua carreira, influências, drogas e voltou aos primórdios do rock no Brasil:

Já tocou no Rio de Janeiro e, neste fim de semana, vem a São Paulo com a turnê Leo 'Guanabara' Jaime. É um show comemorativo de carreira?
Não, não é um show de comemoração. "Guanabara" era o apelido que eu tinha quando comecei a tocar em bandas, a trabalhar com música aqui no Rio. Um apelido que acho que os amigos dos Miquinhos me deram. Quando eu me deparei com uma vontade de fazer um trabalho novo não era só um show, era um encontro comigo de quando comecei. Eu tava num bloqueio criativo há alguns anos, pensando: "Será que a fonte secou?". Aí comecei a lembrar por que eu comecei a compor, qual era o espírito e resolvi trabalhar em cima dessa ideia. Quais eram as músicas que me influenciaram, o que eu ouvia, o que eu tocava, escrevia. Tem algumas músicas nesse show que eu nunca tinha tocado, do começo da carreira. “Rock ’N’ Roll” , por exemplo, uma versão de "Rock And Roll Music" [de Chuck Berry], é a primeira música do meu primeiro disco e eu nunca tinha tocado. Ela traduz o espírito que eu sempre fui fiel, de irreverência, descompromisso, enfim... Comecei a entrar em contato com isso e comecei a encontrar meus amigos do Miquinhos de novo. Foi uma viagem particular às origens.

Essa turnê também terá músicas inéditas?
Tem música inédita, tem música que não é inédita, mas a gente nunca tocou, tem histórias que eu conto. Eu vou costurando as músicas com um pouco de narrativa. Tem músicas covers de outros artistas importantes, como Cazuza, Renato Russo. Tem [Rolling] Stones e Cure, que me influenciaram ou foram da mesma época e me fizeram prestar atenção em outro tipo de coisa, não só no rock and roll básico, que eu chamo de rock regressivo.

Que seria...
O clássico. Rita [Lee], Roberto [Carlos] e Raul [Seixas] no Brasil e Chuck Berry, Little Richards, Elvis, Beatles, Stones... O rock tradicional, que foi muito importante para mim. Embora eu nunca tenha sido purista, nunca fui de usar carteirinha de clube nenhum. Sempre estive um pouco envolvido com música negra, brasileira, com jazz, blues, enfim. O fato de gostar de rock não me impediu de ser um grande fã de música popular brasileira. Já gravei com o Chico [Buarque], gravei Caetano [Veloso], Djavan... Nesse show mesmo, tem a regravação, que já está nas rádios, de "Charme do Mundo", da Marina. Ela é muito importante na minha história. A primeira música minha que ouvi no rádio era com ela, "Gata Todo Dia". Eu me lembro que um dia fui na casa dela, pra gente ir na praia, sei lá, ela disse "comecei uma música", e mostrou a primeira estrofe de "Charme do Mundo", "agora eu não sei pra onde eu vou"... Era esse nível de intimidade que a gente tinha.

Você falou sobre bloqueio criativo e não lança um disco de inéditas desde 2008. O que acontece?
Primeiro, porque eu tenho feito muitas atividades nesse período. Entrei no Saia Justa [na GNT], que passou a ser Papo de Segunda. Entrei no Amor e Sexo, fui trabalhar em Malhação. Diria que fiquei quase dois anos no ar trabalhando em novela. É uma coisa de segunda a sábado o dia inteiro. Escrevi um livro também. Nunca deixei de fazer show e nem de lotar os lugares onde eu vou, mas eu fiquei com o tempo muito dividido. Nesse ano, eu quis priorizar a música. Tive que recusar umas coisas muito interessantes em função disso, de ter tempo pra compor, etc. E senti as coisas voltando. A ideia é sair fazendo e soltando, porque eu não tenho vínculo nenhum com mercado de disco. Hoje, não é todo mundo que lança disco toda hora... Não sei se um disco com 10 músicas e tal é uma ideia, num momento que está tudo muito fragmentado.

Então, não seria exatamente um disco?
Temos aí um outro momento. Eu tô lançando uma música pra download. Dá pra lançar uma só. Se eu tiver tipo cinco, dá pra lançar com cinco. Ou não. Sei lá como funciona hoje em dia. Uma coisa que era realidade quando eu comecei é que, como não tinha expectativa nenhuma, você não ficava se regulando por regras do mercado, do que é radiofônico, do que tem refrão, do que não tem.

Mas isso, querendo ou não, também lhe pautou em determinado ponto da carreira.
Sim. Mas, por exemplo, "A Vida Não Presta" é uma das minhas músicas mais tocadas, mais cantadas...e é uma música sem refrão. Eu nem pensava se tinha refrão ou não, entendeu? Quando eu ouço "Band On The Run", do Paul McCartney, são três músicas emendadas em uma música só, muda o andamento, instrumentação, melodia, harmonia. O Caetano mesmo faz de tanto em tanto uma música 5x4, ninguém faz mais isso hoje em dia.

Você vê esse movimento como uma imposição do mercado?
Eu não sei se existe mais essa receita. O fato é que o mercado da música continua forte no mundo inteiro. No Brasil é que eu acho que foi muito enfraquecido, porque, desde os anos 90, virou uma coisa de "ou é maxmedia ou não tem mais espaço". A ideia de não incentivar os selos, as pequenas produtoras, essa marca da indústria brasileira de fazer monopólio com cinco empresas nos anos 90, desestimulou o pequeno produtor. Mas ele continua existindo. Eu mesmo vou lá, gravo caseiramente minha música, mando pra rádio, solto pra download etc. Agora, é aquela coisa de guerrilha, né? Tem tanta gente talentosa fazendo tanta coisa, mas é muito difícil. Você meio que joga uma garrafa, um "SOS to the world", e vê no que dá.

Como você vê o rock no Brasil hoje?
Olha, quando eu comecei, a gente ia tocar em um lugar e quem ia lá ver – fosse 40, 400 ou 4 mil pessoas – não fazia ideia do que iria ouvir. Você ia no Carbono 14, Madame Satã, vários outros, porque ia ter alguém lá, não importava quem. Por exemplo, eu fui ver, no Circo Voador, uns caras que eu já tinha ouvido no rádio, mas não conhecia ao vivo, tinham tocado muito pouco: Os Paralamas do Sucesso. Fui lá, conheci o Herbert [Vianna] e tal, ele levava a bateria do João [Barone] num fusca. Lá no show, que devia ter umas 50 pessoas na plateia, a abertura foi de uma banda de Brasília chamada Legião Urbana. Renato no baixo, [Marcelo] Bonfá e Dado [Villa-Lobos], só os três. Aí eu conheci o trabalho dos caras. Acho que hoje é difícil achar lugar onde a pessoa comece a tocar. Nos lugares que têm, as pessoas que vão já pedem coisas conhecidas ou que sejam de fácil identificação, de catalogar. Antes, tudo era possível, estava se criando uma porção de linguagens. Essa liberdade que eu não percebo nos dias de hoje. Claro que tem gente muito interessante e talentosa. Mas essa dificuldade de dar certo, de vingar, arrumar espaço pra tocar desestimula.

Isso é meio paradoxal ao espaço que a internet dá, porque tem muito mais exposição. Ao falar em "catalogar", você diz que as pessoas não procuram mais por coisas novas?
Eu acho que existe, sim, por parte do público – e isso interfere no processo criativo – uma disponibilidade pequena para conhecer coisas novas.

Você sempre fez músicas descontraídas, bem humoradas. Não se levava tão a sério. Você acha que isso se perdeu?
Isso é um fato. Esse negócio de se levar muito a sério, ter uma causa, virou uma dessas coisas catalogadas. Citei minhas referências brasileiras, Rita Lee, Erasmo e Raul, você encontra esse espírito crítico e, ao mesmo tempo, descontraído nos três. Nas outras referências que eu tô dando, você vai encontrar gente assim também. Sei lá. Queen era sofisticadíssimo, muito complicado, difícil de fazer, e eles vão fazer um clipe vestidos de mulher com bigode. Uma coisa que eu falo, que pode soar sexista, embora não seja a intenção, é que falta viadagem. Não tô querendo falar de sexo, não, mas de um pensamento livre, descontraído, sem preconceito. “Vou fazer o que der na telha e não tô nem aí pra opinião dos outros“. O rock sempre foi, por excelência, um ambiente que homens, mulheres, gays, lésbicas, todo mundo pôde conviver. Sempre foi um ambiente inclusivo. Esse comportamento você vai encontrar no Elvis Presley: homem não rebolava, ele vai na televisão. Você vê essa atitude no David Bowie, no Mick Jagger e mesmo no cabelo dos Beatles. "Isso não é cabelo de homem!". Enfim, existe um flerte com desrespeitar as convenções, é uma das essências do rock and roll. Por exemplo, Secos & Molhados foi uma coisa de 1973. Será que tem, hoje, algo tão irreverente quanto Secos & Molhados? Quarenta e tantos anos depois. Ou as coisas são irreverentes dentro daquela coisa catalogada, né? O bom humor é uma coisa que caiu de moda. Todo mundo hoje é meio sombrio. Eu me identifico muito com a postura energética que não necessariamente se traduz em letras bem humoradas. Stones, por exemplo: "Jumpin 'Jack Flash" é uma música animadíssima. Vai ver a letra... Se você ouve “I Saw Her Standing There“, dos Beatles, tá lá: parece que você ligou o dedo na tomada. Você não vai ouvir aquilo e ficar quieto. Acho que esse comportamento, que eu apelido de "viadagem", é um pouco de não se levar a sério, não tem nada a ver com sexualidade, tem a ver com liberdade comportamental e um certo desrespeito ao convencional.

As drogas sempre fizeram parte desse meio. Você já falou que até as mais pesadas, como heroína, deveriam ser vendidas como tarja preta por que, assim, haveria um controle maior?
Acho que tudo tem que ser legalizado. Eu tenho pavor dessas coisas serem fabricadas no fundo do quintal por um maluco sem muito cuidado por quem vai comprar, sem regulação nenhuma. Regulamentação, sim, de tudo. Proibição nunca de nada. Nos anos 60, diante de uma sociedade muito conservadora, machista, que a pílula era uma novidade, a sexualidade tinha acabado de ser descoberta, acho que o processo de expandir a consciência foi uma experiência muito importante. Hoje em dia, não sei se tem esse viés mais. Se você gosta de beber, fumar maconha, não deveria fazer tanta diferença assim. As pessoas deveriam ser capazes de lidar com suas escolhas, não é a gente que tem que escolher o que a pessoa vai fazer para se divertir. A liberdade é fundamental. Por outro lado, a compulsão existe. O álcool, sem dúvida nenhuma, é, de todas as substâncias ingeridas, a que causa mais vítimas e é regulamentado, vende na padaria. As pessoas sabem lidar com isso. Eventualmente, quem não souber lidar, você precisa ter estrutura para dar amparo a essas pessoas em vez de gastar uma fortuna tentando proibir e fazer de conta que não tá vendo.

Você ainda usa alguma coisa?
Eu vou te falar: não tenho a menor vocação. Primeiro, eu não sou compulsivo. Eu gosto de tomar vinho, tenho prazer e tal, mas considero alimento. E, se tomei meia garrafa, já fico cheio. Mas não tenho nenhum julgamento moral. Eu acho cocaína, por exemplo, chatérrimo. É um negócio que você cheira pra ficar chato, é um potencializador do mau caratismo. Eu sei porque já estive lá. E acho chatérrimo. Agora, essas experiências são muito pessoais. Para alguns bate bem, para outros, mal. Acho maconha chato a beça também. Dá uma perplexidade, né? Você olha pro azulejo e fala "que azulejo incrível". Você fuma pra ficar burro. Às vezes é bom, né? Em Amsterdã, eu fumei um daqueles purple haze. Caramba, e pra ir pro hotel depois? Era muita consoante, muito pouca vocal. Eu tava completamente desorientado. Pensava "como faz pra essa merda acabar?" Então, uma vez a cada dez anos, em Amsterdã, no hotel, tá bom. Não tenho mais paciência [risos].

Falando em liberdade, nessa semana você estava muito incomodado com a proibição do WhatsApp no Twitter. Você acredita que, aqui, o Estado e o Poder Judiciário interveem demais na vida do cidadão?
Acho que é um fenômeno mundial. Depois daquele atentado na boate gay em Orlando começaram: "Isso é Estado Islâmico!" Torturam-se os fatos para que essa teoria seja provada sem haver o menor indício. "Ah, mas o cara é parente de não sei quem!" E daí? O que se quer é dizer "Precisamos ter mais controle, invadir a privacidade das pessoas, ouvir as conversas telefônicas de todo mundo, ler os e-mails de todo mundo, porque é bom para a segurança". É o Big Brother do [escritor George] Orwell. O maluco é o maluco, ninguém prevê o maluco. Um maluco que entra em uma boate e sai matando gente é um maluco. Se um bêbado, analfabeto, de Quixadá, que nunca saiu de lá e nunca viu um árabe de perto, sair num forró com uma peixeira e meter faca em todo mundo, o Estado Islâmico assume. Ele se vangloria desse fato, entre aspas, porque foi um ato que o interessa. Eles são a associação mundial de malucos. E aí todo maluco pode se inspirar... mas Columbine não foi inspirado neles. Não tinha parente de mulçumano, então ninguém ficou tentando associar com islâmicos. Era um maluco. No século 20, quase que o mundo inteiro estava tomado por ideias totalitaristas. Aos poucos, no final dos anos 80, 90, o mundo foi se livrando disso. Agora, acho que está de quinta marcha em ré, porque a ideia do terrorismo tem servido de argumento para que uma porção de coisas igualmente reacionárias, violentas e psicóticas entrem em ação: homofobia, sexismo, machismo, preconceito racial, contra gordos, deficientes... Ou é terrorismo de um lado ou de outro. Uma maluquice. Eu fico apreensivo, porque ao longo da minha existência, achei que progrediríamos para um estado mais tranquilo, de convivência melhor.

O Brasil também está enfrentando este problema de extremos, com polarização?
Está! Ou é o pensamento único de um lado ou o pensamento único do outro. A democracia e o debate não são bem-vindos. Quando você vê, como eu, defeitos nas duas argumentações, passa a ser um pária. O que se quer é a polarização e a radicalização, né? Só pode ter uma verdade.

Como você avalia o governo interino?
Olha, é um pouco anacrônico. Toda semana tem um ministro sendo convidado a sair porque tem passagem na polícia [risos]. Isso é um governo que vai nos livrar da corrupção? Eu acho esquisito. Eu não sou simpatizante do governo interino nem um pouco. Não acho que haja uma solução simples. Também não era, não votei e nunca fui favorável ao governo anterior. Fico esperando uma terceira via, porque acho que essa coisa de coxinhas e petralhas, olha... Não precisa o mundo se resumir nessas duas possibilidades, eu fico esperando uma coisa mais nova, mais criativa. Sobretudo, espero isso do povo. Acho que o povo brasileiro é muito interessante, mas acho que tem sido manipulado nessas histórias aí. É aquele jogo político de dividir para controlar.

Você falou que voltou a se reunir com os Miquinhos, tem a turnê desse show. O que você está preparando daqui para frente?
Em breve, vou lançar uma música inédita, “Acredite em Mim“. Espero que os shows do Rio e de São Paulo sejam importantes para apontar esse projeto novo para o resto do Brasil. Tenho mandado as músicas para as rádios do Brasil todo também. Pode ser que vire o projeto de um álbum, se é que a gente precisa gravar álbum. Mas uma excursão eu quero que tenha. Inclusive, penso em fazer temporadas em teatro. Acho que seria interessante. Essa era uma das coisas que existia na época do Leo Guanabara que eu acho que a gente podia recuperar: temporadas. Se tem uma peça, podia ter um show. A gente precisa ter espaço pra tocar. Hoje, as casas de show acabaram virando casas de música ao vivo, porque o que se quer é que toque sucessos. São Paulo, por exemplo, tem muitas, é muito fácil viver de música e sair tocando cover. Vai ter lugar pra tocar todo dia. Mas, para aparecer com o próprio material, acho que é muito raro. Penso que o teatro pode ser um espaço cênico interessante para ir e ouvir música.

E vai continuar no programa da GNT, às segundas?
Continuamos com o Papo de Segunda. Eu tenho o maior prazer de ter essa resenha semanal com aqueles caras, amo aqueles caras. É muito bom, a gente se diverte.

Serviço:
Leo Jaime
Tom Brasil
23/7 - 22h
Ingressos: de R$ 100 a R$ 180

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Leo Jaime: “Desrespeitar as convenções é uma das essências do rock and roll”

Em turnê de volta às origens, músico sente falta de artistas que desafiem as convenções

por Lucas Borges Teixeira em 22/07/2016

Quando Leo Jamie mudou-se de Goiânia para o Rio de Janeiro, no final dos anos 1970, a cena de rock no Brasil era outra. Sob o apelido de “Leo Ganabara“, o cantor começou a cantar com uma banda de nome curioso, João Penca e Seus Miquinhos Amestrados, para, em 1983, lançar seu primeiro disco, o Phodas C.

“Não havia perspectiva de que isso poderia virar uma profissão, a gente era de um segmento que não tinha representatividade nenhuma, né?“, relembra o músico, hoje aos 56 anos. “A gente começou a fazer porque gostávamos, sem nos importar muito se ia dar certo ou não”.

O goiano, que participa do programa Papo de Segunda, no canal GNT, tirou 2016 para voltar a priorizar a música com a turnê Leo ‘Guanabara Jaime. Ele quer voltar às origens, no tempo em que ia à praia com a Marina Lima e via Herbert Vianna levar a bateria de João Barone para os shows em seu fusca.

Em entrevista à Billboard Brasil, Leo Jaime falou do novo momento, sua carreira, influências, drogas e voltou aos primórdios do rock no Brasil:

Já tocou no Rio de Janeiro e, neste fim de semana, vem a São Paulo com a turnê Leo 'Guanabara' Jaime. É um show comemorativo de carreira?
Não, não é um show de comemoração. "Guanabara" era o apelido que eu tinha quando comecei a tocar em bandas, a trabalhar com música aqui no Rio. Um apelido que acho que os amigos dos Miquinhos me deram. Quando eu me deparei com uma vontade de fazer um trabalho novo não era só um show, era um encontro comigo de quando comecei. Eu tava num bloqueio criativo há alguns anos, pensando: "Será que a fonte secou?". Aí comecei a lembrar por que eu comecei a compor, qual era o espírito e resolvi trabalhar em cima dessa ideia. Quais eram as músicas que me influenciaram, o que eu ouvia, o que eu tocava, escrevia. Tem algumas músicas nesse show que eu nunca tinha tocado, do começo da carreira. “Rock ’N’ Roll” , por exemplo, uma versão de "Rock And Roll Music" [de Chuck Berry], é a primeira música do meu primeiro disco e eu nunca tinha tocado. Ela traduz o espírito que eu sempre fui fiel, de irreverência, descompromisso, enfim... Comecei a entrar em contato com isso e comecei a encontrar meus amigos do Miquinhos de novo. Foi uma viagem particular às origens.

Essa turnê também terá músicas inéditas?
Tem música inédita, tem música que não é inédita, mas a gente nunca tocou, tem histórias que eu conto. Eu vou costurando as músicas com um pouco de narrativa. Tem músicas covers de outros artistas importantes, como Cazuza, Renato Russo. Tem [Rolling] Stones e Cure, que me influenciaram ou foram da mesma época e me fizeram prestar atenção em outro tipo de coisa, não só no rock and roll básico, que eu chamo de rock regressivo.

Que seria...
O clássico. Rita [Lee], Roberto [Carlos] e Raul [Seixas] no Brasil e Chuck Berry, Little Richards, Elvis, Beatles, Stones... O rock tradicional, que foi muito importante para mim. Embora eu nunca tenha sido purista, nunca fui de usar carteirinha de clube nenhum. Sempre estive um pouco envolvido com música negra, brasileira, com jazz, blues, enfim. O fato de gostar de rock não me impediu de ser um grande fã de música popular brasileira. Já gravei com o Chico [Buarque], gravei Caetano [Veloso], Djavan... Nesse show mesmo, tem a regravação, que já está nas rádios, de "Charme do Mundo", da Marina. Ela é muito importante na minha história. A primeira música minha que ouvi no rádio era com ela, "Gata Todo Dia". Eu me lembro que um dia fui na casa dela, pra gente ir na praia, sei lá, ela disse "comecei uma música", e mostrou a primeira estrofe de "Charme do Mundo", "agora eu não sei pra onde eu vou"... Era esse nível de intimidade que a gente tinha.

Você falou sobre bloqueio criativo e não lança um disco de inéditas desde 2008. O que acontece?
Primeiro, porque eu tenho feito muitas atividades nesse período. Entrei no Saia Justa [na GNT], que passou a ser Papo de Segunda. Entrei no Amor e Sexo, fui trabalhar em Malhação. Diria que fiquei quase dois anos no ar trabalhando em novela. É uma coisa de segunda a sábado o dia inteiro. Escrevi um livro também. Nunca deixei de fazer show e nem de lotar os lugares onde eu vou, mas eu fiquei com o tempo muito dividido. Nesse ano, eu quis priorizar a música. Tive que recusar umas coisas muito interessantes em função disso, de ter tempo pra compor, etc. E senti as coisas voltando. A ideia é sair fazendo e soltando, porque eu não tenho vínculo nenhum com mercado de disco. Hoje, não é todo mundo que lança disco toda hora... Não sei se um disco com 10 músicas e tal é uma ideia, num momento que está tudo muito fragmentado.

Então, não seria exatamente um disco?
Temos aí um outro momento. Eu tô lançando uma música pra download. Dá pra lançar uma só. Se eu tiver tipo cinco, dá pra lançar com cinco. Ou não. Sei lá como funciona hoje em dia. Uma coisa que era realidade quando eu comecei é que, como não tinha expectativa nenhuma, você não ficava se regulando por regras do mercado, do que é radiofônico, do que tem refrão, do que não tem.

Mas isso, querendo ou não, também lhe pautou em determinado ponto da carreira.
Sim. Mas, por exemplo, "A Vida Não Presta" é uma das minhas músicas mais tocadas, mais cantadas...e é uma música sem refrão. Eu nem pensava se tinha refrão ou não, entendeu? Quando eu ouço "Band On The Run", do Paul McCartney, são três músicas emendadas em uma música só, muda o andamento, instrumentação, melodia, harmonia. O Caetano mesmo faz de tanto em tanto uma música 5x4, ninguém faz mais isso hoje em dia.

Você vê esse movimento como uma imposição do mercado?
Eu não sei se existe mais essa receita. O fato é que o mercado da música continua forte no mundo inteiro. No Brasil é que eu acho que foi muito enfraquecido, porque, desde os anos 90, virou uma coisa de "ou é maxmedia ou não tem mais espaço". A ideia de não incentivar os selos, as pequenas produtoras, essa marca da indústria brasileira de fazer monopólio com cinco empresas nos anos 90, desestimulou o pequeno produtor. Mas ele continua existindo. Eu mesmo vou lá, gravo caseiramente minha música, mando pra rádio, solto pra download etc. Agora, é aquela coisa de guerrilha, né? Tem tanta gente talentosa fazendo tanta coisa, mas é muito difícil. Você meio que joga uma garrafa, um "SOS to the world", e vê no que dá.

Como você vê o rock no Brasil hoje?
Olha, quando eu comecei, a gente ia tocar em um lugar e quem ia lá ver – fosse 40, 400 ou 4 mil pessoas – não fazia ideia do que iria ouvir. Você ia no Carbono 14, Madame Satã, vários outros, porque ia ter alguém lá, não importava quem. Por exemplo, eu fui ver, no Circo Voador, uns caras que eu já tinha ouvido no rádio, mas não conhecia ao vivo, tinham tocado muito pouco: Os Paralamas do Sucesso. Fui lá, conheci o Herbert [Vianna] e tal, ele levava a bateria do João [Barone] num fusca. Lá no show, que devia ter umas 50 pessoas na plateia, a abertura foi de uma banda de Brasília chamada Legião Urbana. Renato no baixo, [Marcelo] Bonfá e Dado [Villa-Lobos], só os três. Aí eu conheci o trabalho dos caras. Acho que hoje é difícil achar lugar onde a pessoa comece a tocar. Nos lugares que têm, as pessoas que vão já pedem coisas conhecidas ou que sejam de fácil identificação, de catalogar. Antes, tudo era possível, estava se criando uma porção de linguagens. Essa liberdade que eu não percebo nos dias de hoje. Claro que tem gente muito interessante e talentosa. Mas essa dificuldade de dar certo, de vingar, arrumar espaço pra tocar desestimula.

Isso é meio paradoxal ao espaço que a internet dá, porque tem muito mais exposição. Ao falar em "catalogar", você diz que as pessoas não procuram mais por coisas novas?
Eu acho que existe, sim, por parte do público – e isso interfere no processo criativo – uma disponibilidade pequena para conhecer coisas novas.

Você sempre fez músicas descontraídas, bem humoradas. Não se levava tão a sério. Você acha que isso se perdeu?
Isso é um fato. Esse negócio de se levar muito a sério, ter uma causa, virou uma dessas coisas catalogadas. Citei minhas referências brasileiras, Rita Lee, Erasmo e Raul, você encontra esse espírito crítico e, ao mesmo tempo, descontraído nos três. Nas outras referências que eu tô dando, você vai encontrar gente assim também. Sei lá. Queen era sofisticadíssimo, muito complicado, difícil de fazer, e eles vão fazer um clipe vestidos de mulher com bigode. Uma coisa que eu falo, que pode soar sexista, embora não seja a intenção, é que falta viadagem. Não tô querendo falar de sexo, não, mas de um pensamento livre, descontraído, sem preconceito. “Vou fazer o que der na telha e não tô nem aí pra opinião dos outros“. O rock sempre foi, por excelência, um ambiente que homens, mulheres, gays, lésbicas, todo mundo pôde conviver. Sempre foi um ambiente inclusivo. Esse comportamento você vai encontrar no Elvis Presley: homem não rebolava, ele vai na televisão. Você vê essa atitude no David Bowie, no Mick Jagger e mesmo no cabelo dos Beatles. "Isso não é cabelo de homem!". Enfim, existe um flerte com desrespeitar as convenções, é uma das essências do rock and roll. Por exemplo, Secos & Molhados foi uma coisa de 1973. Será que tem, hoje, algo tão irreverente quanto Secos & Molhados? Quarenta e tantos anos depois. Ou as coisas são irreverentes dentro daquela coisa catalogada, né? O bom humor é uma coisa que caiu de moda. Todo mundo hoje é meio sombrio. Eu me identifico muito com a postura energética que não necessariamente se traduz em letras bem humoradas. Stones, por exemplo: "Jumpin 'Jack Flash" é uma música animadíssima. Vai ver a letra... Se você ouve “I Saw Her Standing There“, dos Beatles, tá lá: parece que você ligou o dedo na tomada. Você não vai ouvir aquilo e ficar quieto. Acho que esse comportamento, que eu apelido de "viadagem", é um pouco de não se levar a sério, não tem nada a ver com sexualidade, tem a ver com liberdade comportamental e um certo desrespeito ao convencional.

As drogas sempre fizeram parte desse meio. Você já falou que até as mais pesadas, como heroína, deveriam ser vendidas como tarja preta por que, assim, haveria um controle maior?
Acho que tudo tem que ser legalizado. Eu tenho pavor dessas coisas serem fabricadas no fundo do quintal por um maluco sem muito cuidado por quem vai comprar, sem regulação nenhuma. Regulamentação, sim, de tudo. Proibição nunca de nada. Nos anos 60, diante de uma sociedade muito conservadora, machista, que a pílula era uma novidade, a sexualidade tinha acabado de ser descoberta, acho que o processo de expandir a consciência foi uma experiência muito importante. Hoje em dia, não sei se tem esse viés mais. Se você gosta de beber, fumar maconha, não deveria fazer tanta diferença assim. As pessoas deveriam ser capazes de lidar com suas escolhas, não é a gente que tem que escolher o que a pessoa vai fazer para se divertir. A liberdade é fundamental. Por outro lado, a compulsão existe. O álcool, sem dúvida nenhuma, é, de todas as substâncias ingeridas, a que causa mais vítimas e é regulamentado, vende na padaria. As pessoas sabem lidar com isso. Eventualmente, quem não souber lidar, você precisa ter estrutura para dar amparo a essas pessoas em vez de gastar uma fortuna tentando proibir e fazer de conta que não tá vendo.

Você ainda usa alguma coisa?
Eu vou te falar: não tenho a menor vocação. Primeiro, eu não sou compulsivo. Eu gosto de tomar vinho, tenho prazer e tal, mas considero alimento. E, se tomei meia garrafa, já fico cheio. Mas não tenho nenhum julgamento moral. Eu acho cocaína, por exemplo, chatérrimo. É um negócio que você cheira pra ficar chato, é um potencializador do mau caratismo. Eu sei porque já estive lá. E acho chatérrimo. Agora, essas experiências são muito pessoais. Para alguns bate bem, para outros, mal. Acho maconha chato a beça também. Dá uma perplexidade, né? Você olha pro azulejo e fala "que azulejo incrível". Você fuma pra ficar burro. Às vezes é bom, né? Em Amsterdã, eu fumei um daqueles purple haze. Caramba, e pra ir pro hotel depois? Era muita consoante, muito pouca vocal. Eu tava completamente desorientado. Pensava "como faz pra essa merda acabar?" Então, uma vez a cada dez anos, em Amsterdã, no hotel, tá bom. Não tenho mais paciência [risos].

Falando em liberdade, nessa semana você estava muito incomodado com a proibição do WhatsApp no Twitter. Você acredita que, aqui, o Estado e o Poder Judiciário interveem demais na vida do cidadão?
Acho que é um fenômeno mundial. Depois daquele atentado na boate gay em Orlando começaram: "Isso é Estado Islâmico!" Torturam-se os fatos para que essa teoria seja provada sem haver o menor indício. "Ah, mas o cara é parente de não sei quem!" E daí? O que se quer é dizer "Precisamos ter mais controle, invadir a privacidade das pessoas, ouvir as conversas telefônicas de todo mundo, ler os e-mails de todo mundo, porque é bom para a segurança". É o Big Brother do [escritor George] Orwell. O maluco é o maluco, ninguém prevê o maluco. Um maluco que entra em uma boate e sai matando gente é um maluco. Se um bêbado, analfabeto, de Quixadá, que nunca saiu de lá e nunca viu um árabe de perto, sair num forró com uma peixeira e meter faca em todo mundo, o Estado Islâmico assume. Ele se vangloria desse fato, entre aspas, porque foi um ato que o interessa. Eles são a associação mundial de malucos. E aí todo maluco pode se inspirar... mas Columbine não foi inspirado neles. Não tinha parente de mulçumano, então ninguém ficou tentando associar com islâmicos. Era um maluco. No século 20, quase que o mundo inteiro estava tomado por ideias totalitaristas. Aos poucos, no final dos anos 80, 90, o mundo foi se livrando disso. Agora, acho que está de quinta marcha em ré, porque a ideia do terrorismo tem servido de argumento para que uma porção de coisas igualmente reacionárias, violentas e psicóticas entrem em ação: homofobia, sexismo, machismo, preconceito racial, contra gordos, deficientes... Ou é terrorismo de um lado ou de outro. Uma maluquice. Eu fico apreensivo, porque ao longo da minha existência, achei que progrediríamos para um estado mais tranquilo, de convivência melhor.

O Brasil também está enfrentando este problema de extremos, com polarização?
Está! Ou é o pensamento único de um lado ou o pensamento único do outro. A democracia e o debate não são bem-vindos. Quando você vê, como eu, defeitos nas duas argumentações, passa a ser um pária. O que se quer é a polarização e a radicalização, né? Só pode ter uma verdade.

Como você avalia o governo interino?
Olha, é um pouco anacrônico. Toda semana tem um ministro sendo convidado a sair porque tem passagem na polícia [risos]. Isso é um governo que vai nos livrar da corrupção? Eu acho esquisito. Eu não sou simpatizante do governo interino nem um pouco. Não acho que haja uma solução simples. Também não era, não votei e nunca fui favorável ao governo anterior. Fico esperando uma terceira via, porque acho que essa coisa de coxinhas e petralhas, olha... Não precisa o mundo se resumir nessas duas possibilidades, eu fico esperando uma coisa mais nova, mais criativa. Sobretudo, espero isso do povo. Acho que o povo brasileiro é muito interessante, mas acho que tem sido manipulado nessas histórias aí. É aquele jogo político de dividir para controlar.

Você falou que voltou a se reunir com os Miquinhos, tem a turnê desse show. O que você está preparando daqui para frente?
Em breve, vou lançar uma música inédita, “Acredite em Mim“. Espero que os shows do Rio e de São Paulo sejam importantes para apontar esse projeto novo para o resto do Brasil. Tenho mandado as músicas para as rádios do Brasil todo também. Pode ser que vire o projeto de um álbum, se é que a gente precisa gravar álbum. Mas uma excursão eu quero que tenha. Inclusive, penso em fazer temporadas em teatro. Acho que seria interessante. Essa era uma das coisas que existia na época do Leo Guanabara que eu acho que a gente podia recuperar: temporadas. Se tem uma peça, podia ter um show. A gente precisa ter espaço pra tocar. Hoje, as casas de show acabaram virando casas de música ao vivo, porque o que se quer é que toque sucessos. São Paulo, por exemplo, tem muitas, é muito fácil viver de música e sair tocando cover. Vai ter lugar pra tocar todo dia. Mas, para aparecer com o próprio material, acho que é muito raro. Penso que o teatro pode ser um espaço cênico interessante para ir e ouvir música.

E vai continuar no programa da GNT, às segundas?
Continuamos com o Papo de Segunda. Eu tenho o maior prazer de ter essa resenha semanal com aqueles caras, amo aqueles caras. É muito bom, a gente se diverte.

Serviço:
Leo Jaime
Tom Brasil
23/7 - 22h
Ingressos: de R$ 100 a R$ 180