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Resenha – A Biografia de Torquato Neto, de Toninho Vaz

por em 01/08/2014
Torquato neto Do nascer à queda do cacho de bananas Por Maurício Amendola Em A Biografia de Torquato Neto, o jornalista e escritor curitibano Toninho Vaz atualiza sua Pra Mim Chega, A Biografia de Torquato Neto, lançada em 2004, com a ambição de traçar toda – ênfase em “toda” - a trajetória do poeta que estava no âmago da criação tropicalista e que em dado momento rompeu com o movimento de Caetano, Gil, Tom Zé e Mutantes. Toninho Vaz realizou mais de 70 entrevistas para desvendar a figura e a carreira de Torquato, que se suicidou, em 1972, na madrugada de seu 28º aniversário. Autor da letra-manifesto “Geleia Geral”, presente no disco Tropicália Ou Panis Et Circenses (1968), o poeta de Teresina é descortinado numa obra que mescla rigor jornalístico e lirismo. http://www.youtube.com/watch?v=DCzgR7i_Eak Com exposições estritamente factuais –relatos de conhecidos do biografado temperam toda a narrativa – e, ao mesmo tempo, se valendo de ganchos que exploram a poética do Torquato, o livro não perde o fôlego em nenhum momento. Há espaço, claro, para divagações mais minuciosas acerca da antropofagia tropicalista (“como achar Fellini genial e não gostar de Zé do Caixão?”, sintetiza o Torquato a certa altura), mas elas são feitas sem que se caia na verborragia do que já foi repetido inúmeras vezes. Para escapar dessa “gastação”, Vaz se apega a pequenas histórias de Torquato – radicalismos, exageros e promoções de choques no consciente coletivo catalisados por álcool e drogas - que dizem mais que qualquer tese de sociologia. O autor soube tratar do “anjo torto” (como o cantado por Carlos Drummond de Andrade no “Poema De Sete Faces”) de forma que a Tropicália aparece mais como um produto de suas aventuras de devoção artística. Obviamente, o movimento é apresentado como algo parecido com o magnum opus de Torquato. O recado é: Torquato era muito mais que a Tropicália. E isso é constatado pelos próprios entrevistados. Poucas vezes o clichê de que a genialidade e a loucura são divididas por uma linha tênue foi tão legítimo como nessa história intensa e breve. Quando Torquato prescreve “um poeta não se faz com versos”, acredite, ele estava falando muito sério. Vaz expõe detalhadamente o estilo “kamikaze” daquele que, indubitavelmente, estava além de seus pares tropicalistas, pelo menos, no que diz respeito a ser fiel à revolução. Uma revolução que, para Torquato, se recriava a cada instante – “É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela” (Pessoal Intransferível – 1971) Na carta de despedida do poeta, ele escreveu: “Tenho saudades como os cariocas dos tempos em que me sentia e achava que era uma guia de cegos. Depois começaram a ver e enquanto me contorcia de dores o cacho de banana caía” – referência à fruta emblemática da Tropicália. Resultado de uma overdose espiritual (não orgânica, como aponta o livro), o suicídio de Torquato Neto é peça chave para mensurar o extremismo e desconforto que o rodeavam, além de ser um arremate trágico-romântico de uma obra imprescindível - juntamente com Tropicália, A História De Uma Revolução Musical, de Carlos Calado, e Verdade Tropical, de Caetano Veloso – para quem quer conhecer melhor os personagens significativos e significantes do sincretismo cultural brasileiro: ora erudito, regionalista e intocável, ora pop, rasteiro e universal.  
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por em 01/08/2014
Torquato neto Do nascer à queda do cacho de bananas Por Maurício Amendola Em A Biografia de Torquato Neto, o jornalista e escritor curitibano Toninho Vaz atualiza sua Pra Mim Chega, A Biografia de Torquato Neto, lançada em 2004, com a ambição de traçar toda – ênfase em “toda” - a trajetória do poeta que estava no âmago da criação tropicalista e que em dado momento rompeu com o movimento de Caetano, Gil, Tom Zé e Mutantes. Toninho Vaz realizou mais de 70 entrevistas para desvendar a figura e a carreira de Torquato, que se suicidou, em 1972, na madrugada de seu 28º aniversário. Autor da letra-manifesto “Geleia Geral”, presente no disco Tropicália Ou Panis Et Circenses (1968), o poeta de Teresina é descortinado numa obra que mescla rigor jornalístico e lirismo. http://www.youtube.com/watch?v=DCzgR7i_Eak Com exposições estritamente factuais –relatos de conhecidos do biografado temperam toda a narrativa – e, ao mesmo tempo, se valendo de ganchos que exploram a poética do Torquato, o livro não perde o fôlego em nenhum momento. Há espaço, claro, para divagações mais minuciosas acerca da antropofagia tropicalista (“como achar Fellini genial e não gostar de Zé do Caixão?”, sintetiza o Torquato a certa altura), mas elas são feitas sem que se caia na verborragia do que já foi repetido inúmeras vezes. Para escapar dessa “gastação”, Vaz se apega a pequenas histórias de Torquato – radicalismos, exageros e promoções de choques no consciente coletivo catalisados por álcool e drogas - que dizem mais que qualquer tese de sociologia. O autor soube tratar do “anjo torto” (como o cantado por Carlos Drummond de Andrade no “Poema De Sete Faces”) de forma que a Tropicália aparece mais como um produto de suas aventuras de devoção artística. Obviamente, o movimento é apresentado como algo parecido com o magnum opus de Torquato. O recado é: Torquato era muito mais que a Tropicália. E isso é constatado pelos próprios entrevistados. Poucas vezes o clichê de que a genialidade e a loucura são divididas por uma linha tênue foi tão legítimo como nessa história intensa e breve. Quando Torquato prescreve “um poeta não se faz com versos”, acredite, ele estava falando muito sério. Vaz expõe detalhadamente o estilo “kamikaze” daquele que, indubitavelmente, estava além de seus pares tropicalistas, pelo menos, no que diz respeito a ser fiel à revolução. Uma revolução que, para Torquato, se recriava a cada instante – “É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela” (Pessoal Intransferível – 1971) Na carta de despedida do poeta, ele escreveu: “Tenho saudades como os cariocas dos tempos em que me sentia e achava que era uma guia de cegos. Depois começaram a ver e enquanto me contorcia de dores o cacho de banana caía” – referência à fruta emblemática da Tropicália. Resultado de uma overdose espiritual (não orgânica, como aponta o livro), o suicídio de Torquato Neto é peça chave para mensurar o extremismo e desconforto que o rodeavam, além de ser um arremate trágico-romântico de uma obra imprescindível - juntamente com Tropicália, A História De Uma Revolução Musical, de Carlos Calado, e Verdade Tropical, de Caetano Veloso – para quem quer conhecer melhor os personagens significativos e significantes do sincretismo cultural brasileiro: ora erudito, regionalista e intocável, ora pop, rasteiro e universal.