Como a immortal World tour se tornou a nona turnê de maior faturamento da atualidade, e o que virá a seguir, Por Mitchell Peters

Edição de Dezembro

No outono de 1987, não muito tempo depois do lançamento do álbum Bad, Michael Jackson e seu advogado/conselheiro de longa data John Branca se enfiaram numa van para ir ver a estreia do Cirque du Soleil em Los Angeles, no Santa Monica Pier. Eles pegaram o veículo, com Branca ao volante (apesar de Michael ter-lhe dado um Rolls-Royce de presente), e foram na direção errada na congestionada rodovia 405, mas chegaram a tempo. O Cirque du Soleil tinha apenas três anos de existência e, fiel à inspiração circense, estava abrigado numa tenda em sua visita a Los Angeles. Michael mal podia conter a empolgação ao assistir à apresentação da trupe de Quebec, lembra Branca. “Depois do show, ele me disse: ‘Temos que ir ao palco para conhecer o elenco’. Eu não seria capaz de dizer quem estava mais empolgado, o elenco por conhecer Michael, ou Michael, por conhecer o elenco. Ele estava entusiasmado demais!” O fascínio não terminou aí. Depois de ir ao maior número possível de apresentações da trupe, conhecida por seus acrobatas aéreos hipnóticos e trajes inusitados, o Rei do Pop decidiu visitar o quartel general da companhia, em Montreal. “Eu fiz a turnê com ele”, lembra Daniel La- marre, presidente/CEO do Cirque. “Como pode imaginar, todos os nossos funcionários ficaram muito empolgados por tê-lo ali. Ele passou muito tempo em nosso estúdio criativo e no nosso workshop de trajes.” Na época, Michael ainda estava lotando arenas e estádios por todo o mundo. Nem o cantor nem o Cirque poderiam imaginar que uma temporada de arena mesclando hits como “Billie Jean” e “Thriller” com visuais estonteantes e o toque teatral da trupe um dia estaria entre as dez mais lucrativas turnês da história. Mesmo depois de morto, Michael Jackson continua sendo uma das marcas musicais mais lucrativas do atual mercado de entretenimento ao vivo. Concebida graças a uma parceria de divisão igualitária de receita entre o espólio do cantor e o Cirque du Soleil, Michael Jackson: The Immortal World Tour recentemente se tornou a nona turnê mais lucrativa de todos os tempos, faturando US$ 325,1 milhões em 407 shows que, juntos, atraíram 2.985.324 pessoas, de acordo com o Billboard Boxscore. O preço dos ingressos variou entre US$ 50 e US$ 250. Immortal também entrou na lista das 25 turnês de maior faturamento de 2012, e levou para casa o Creative Content Award no Billboard Touring Awards – o prêmio para turnês da Billboard – no mesmo ano. Apesar de rankings oficias ainda não terem sido divulgados, Immortal estará entre as turnês de maior faturamento de 2013 também. Na parada do Boxscore, Immortal chega perto da turnê Voodoo Lounge (94-95), dos Rolling Stones, ranqueada na décima posição, com US$ 320 milhões em faturamento bruto, e está atrás de Wrecking Ball (2012-2013), de Bruce Springsteen (8º lugar, US$ 347 milhões). U2, Stones e Roger Waters são os três artistas ou bandas com turnês de maior faturamento bruto, respectivamente. Michael Jackson é o único artista falecido no top 10. O contrato do espólio de Michael com o Cirque também inclui uma produção teatral per- manente em Las Vegas, a Michael Jackson One, que estreou em maio, num teatro remodelado de 1,8 mil lugares em Mandalay Bay, onde antes eram apresentadas The Lion King e Mamma Mia!. Desde sua estreia, One tem vendido 93% de seus assentos em uma média de dez shows por semana, de acordo com o Cirque. “One e Immortal representam uma verdadeira experiência de Michael Jackson, a segunda melhor, depois de vê-lo ao vivo”, diz Branca, que agora atua como coexecutor testamentá- rio do espólio, juntamente com John McClain. “Immortal é semelhante à experiência de um show de rock, com uma banda de rock em uma arena, enquanto One é um show mais teatral.” Com um custo total de desenvolvimento de US$ 145 milhões, Immortal e One são duas produções separadas e distintas construídas em torno da música de Michael Jackson. Ambos os shows foram escritos e dirigidos por Jamie King, um dançarino da turnê mundial de Dangerous, no início dos anos 90. As produções também apresentam diversos outros músicos, coreógrafos e designers de trajes com os quais Michael trabalhou ao longo de sua carreira. Apesar da ausência do próprio Michael Jackson no palco, King diz que as músicas, imagens, interlúdios falados, e outros recursos escolhidos para Immortal e One refletem o melhor da vida e da carreira musical da lenda do pop. “Eu tive a pesada responsabilidade de trazer o espírito de Michael para o palco, refletindo sua sensibilidade criativa e projetando seu incrível talento para seus fãs”, diz King, que também dirigiu turnês de arena de Madonna, Britney Spears e Rihanna. “Michael nunca esteve ausente durante o desenvolvimento, ensaios e lançamento destes dois álbuns.” Immortal estreou no Bell Centre, em Montreal, em outubro de 2011, e seu 407º show foi apresentado na Vector Arena, na Nova Zelândia, em 3 de novembro. A turnê será relançada em dezembro, com uma longa temporada em Dubai, antes de voltar para shows de diversos tamanhos nas arenas americanas em março de 2014, com possível passagem pelo Brasil (veja boxe na página ao lado). Até agora, passou por 25 países em quatro continentes. Lamarre acredita que a turnê irá continuar a subir nas paradas do Boxscore. “Eu não ficaria surpreso se, ao fim da turnê, quando quer que seja o fim, ela estiver entre as cinco maiores turnês na história do rock’n’roll”, diz ele. Quando Michael Jackson morreu, em 25 de junho de 2009, devido a um infarto causado por medicamentos, aos 50 anos, ele estava su- postamente devendo US$ 500 milhões. Apesar de ele ainda ter elevado potencial de ganhos (ba- seado nos 50 shows com lotação esgotada de sua temporada com o espetáculo This Is It, na O2 Arena, em Londres), Michael ganhou mais dinheiro depois de morto do que quando vivia. A Billboard estima que a MJ Inc. gerou pelo menos US$ 1 bilhão no ano que se seguiu à sua morte. No ano passado, o espólio de Michael pagou a dívida pessoal astronômica dele, graças em parte ao lucrativo contrato de US$ 250 milhões com a Sony Music, aos lucros obtidos com o fi lme Michael Jackson: This Is It, aos 50 milhões de álbuns vendidos em todo o mundo após sua morte, ao fato de ser dono de metade da Sony/ ATV Music Publishing, a vários contratos de licenciamento, e aos shows de alto faturamento do Cirque. “Às vezes, infelizmente, nossos grandes artistas são mais apreciados depois de mortos. Michael era um excelente artista, e seu legado irá perdurar”, diz Branca. “Já havia muito interesse em Michael e muito potencial de ganho antes de seu falecimento, o que foi provado pelos 50 shows com lotação esgotada na O2 Arena.” Os ganhos gerais de Michael estão divididos entre caridade (20%), os filhos do cantor (40%), e sua mãe, Katherine Jackson (40%). Seus três filhos irão receber a parte de Katherine após sua morte. Normalmente, Branca e McClain recebem uma comissão de 10% sobre os ganhos do espólio. Branca diz que o espólio é constantemente abordado por pessoas com ideias de projetos relacionados a Michael, mas que ele e McClain são muito seletivos quanto a novas parcerias e contratos de licenciamento. “Não queremos exagerar, só licenciamos os produtos que achamos que são apropriados e divertidos”, diz Branca, citando a aprovação de uma máquina caça-níqueis em Las Vegas.  Os executores sempre haviam planejado uma experiência ao vivo em torno da música de Michael Jackson. O Cirque parecia o parceiro ideal, devido à apreciação que o artista tinha pela trupe. Por isso, no fim de 2009, começaram as conversas. ”Eles são muito criativos e perfeccionistas, como Michael era”, compara Branca. Ele e McClain, a princípio, imaginaram um show permanente em Las Vegas, baseado na música de Michael, parecido com o conceito do sempre esgotado Beatles Love, do Cirque no Mirage Hotel, que começou em 2006. Mas, depois de longas conversas, Lamarre e o fundador do Cirque, Guy Laliberre, acharam que um show com tecnologia pesada levaria anos para ser criado, e que uma turnê de arena global poderia ser um empreendimento lucrativo nesse meio tempo.”Levamos dois anos para refazer o teatro em Mandalay Bay. Não pudemos resistir à tentação de fazer uma turnê ao redor do mundo”, conta Lamarre. Vinte meses depois da estreia de Immortal, o espólio de Michael e o Cirque, em parceria com a MGM Resorts International, começaram as prévias de One, em 23 de maio. O show estreou oficialmente em 29 de junho. O Cirque diz que poderia vender mais de 425 mil ingressos de 270 apresentações até o fim de 2013 (os números de One ainda não foram reportados ao Boxscore). O Cirque e o espólio são donos de 50% cada das duas produções, e dividem igualmente o custo de produzi-las. O espólio recebe royalties pelo uso da música de Michael e outros ativos. Os royalties também vão para a Sony, pelo uso de suas gravações master solo, e para os editores musicais, como Warner/Chappell (que administra o catálogo Mijac Music, de Michael) e Universal Music Publishing Group (que cuida do catálogo do compositor Rod Temperton, que é autor de “Rock With You” e “Thriller”). Antes do lançamento de Immortal, alguns observadores da indústria questionaram se uma turnê de arena baseada em Michael poderia ser bem-sucedida sem sua presença. “Muita gente via a ideia como bizarra. Foi bastante arriscado”, diz Lamarre. Mas esta não foi a primeira vez para o Cirque. A empresa tem um histórico invejável: seu espetáculo Delirium teve faturamento bruto de US$ 143 milhões em 306 shows que atraíram mais de 1,6 milhão de pessoas em 2006-2008. Em 2012, os shows itinerantes Saltimbanco, Alegria, Quidam, Varekai e Dralion tiveram faturamento bruto de US$ 128 milhões, e atraíram mais de 1,8 milhão de pessoas. Ao longo de todo o mês de setembro deste ano, oito das turnês da empresa já haviam faturado US$ 191 milhões. Com 133 pessoas na estrada, e 44 caminhões para o transporte dos equipamentos, o aspecto mais desafiador de Immortal foi seu tamanho imenso, conta Taylor. A turnê esteve em locais com capacidade para até 20 mil pessoas nos EUA, mas teve que diminuir a produção para tocar em arenas menores no exterior, que iam de quatro a seis mil lugares. O Cirque teve dificuldade com sua segunda produção temática relacionada a um artista, Viva Elvis, uma parceria com a empresa matriz da Elvis Presley Enterprises, CKX. O show baseado no Rei do Rock estreou num local com capacidade para duas mil pessoas, como resultado de baixa procura por ingressos. No início do ano, surgiram boatos de que o Cirque iria demitir 400 funcionários. Apesar dos problemas passados, o Cirque investiu muito dinheiro nos shows de Michael Jackson. O risco deu resultado com Immortal, que custou US$ 50 milhões para ser desenvolvido. O investimento já foi recuperado com a vendas de ingressos. O tempo dirá se One será capaz de dar lucro. A produção de Vegas enfrenta competição não só dos shows do Cirque, mas de dúzias de outras opções de entretenimento, incluindo temporadas fixas de Celine Dion, Shania Twain e o show de Britney Spears, que está para ser lançado. O custo total de One foi de aproximadamente US$ 95 milhões, divididos entre a reforma do teatro (US$ 45 milhões) e a criação do show em si (US$ 50 milhões). “Devido ao fato de o local ter sido projetado e especificamente preparado para este show, pudemos criar mais efeitos especiais, acrobacias e experiências de imersão do que se poderia fazer em uma arena”, explica Branca. O investimento em One deve ser recuperado nos próximos dois ou três anos, se as vendas de ingressos continuarem indo bem, avalia Jerry Nadal, vice-presidente sênior de shows residentes do Cirque. O show tem 481 apresentações marcadas para 2014, com preços de ingresso que variam entre US$ 69 e US$ 180. Essas apresentações devem vender mais de 800 mil ingressos, diz Nadal. One deve permanecer com a Mandalay Bay por dez anos, devido ao contrato, com a opção de extensão do acordo, se o show continuar sendo lucrativo. Tirando o fracasso de Viva Elvis, que o Cirque atribui à recessão econômica, a empresa tem um histórico comprovado por muitos dos shows residentes. Precisou, inclusive, estender os contratos para produções de Las Vegas que já estão há muito tempo em cartaz, como Mystere e O. “Eu vejo como certa a extensão do contrato de One”, diz Nadal. “Nós tivemos muita longevidade com nossos shows.” Além das vendas de ingressos, o Cirque também tem tido uma receita estável em sua loja de presentes relacionados ao espetáculo, como suvenires e mercadorias sofisticadas de Michael. A loja vende de US$ 20 mil a US$ 25 mil por noite, o que está no mesmo patamar que a loja de Beatles Love. A mercadoria para Immortal e One é fornecida diretamente pela parceria entre o Cirque e o espólio de Michael. Outras mercadorias com a marca MJ vêm da Bravado (ou da Sony, no caso dos álbuns). Branca achou que fazia sentido lançar um álbum junto com a turnê. Então, em novembro de 2011, como parte de um contrato multimilionário para dez álbuns com o espólio de Michael até 2017, a Sony lançou a trilha sonora de Immortal pela  MJJ/Epic Records. O trabalho apresenta uma versão alternativa do hit do Jackson 5 “ABC” e uma série de mash-ups e remixes. A turnê Immortal usa mais de 60 músicas do catálogo de Michael, mas o álbum inclui 15 faixas (a edição deluxe tem 22). A trilha sonora estreou na 24ª posição do Billboard 200, e já vendeu 202 mil cópias, de acordo com o Nielsen SoundScan. Com exceção da trilha sonora, não há planos de lançar outros álbuns ou DVDs de Immortal ou One. No entanto, o Cirque e o espólio do artista estão cogitando a ideia de lançar um aplicativo para celular que proporcione uma visão da experiência dos shows, revela Branca Outros álbuns lançados sob o contrato Sony/ espólio de Michael incluem This Is It (2009), Michael (2010) e a edição de 25º aniversário de Bad (2012), que incluía um DVD de show e um documentário dirigido por Spike Lee. Juntos, os álbuns venderam 2,4 milhões de cópias. Também lançado sob o contrato está um pacote de três DVDs intitulado Michael Jackson’s Vision, de 2010, que vendeu 133 mil cópias. “Michael Jackson é, sem dúvida alguma, o artista mais bem-sucedido da história da Epic Records”, diz o presidente/CEO da empresa, Antonio “L.A.” Reid. Continuam a circular boatos sobre uma pos- sível nova música de Michael Jackson – tanto Brian May como Roger Taylor, do Queen, disse- ram que May trabalhou em faixas que Freddie Mercury e Michael gravaram em 1983 – mas nem a Sony nem Branca quiseram divulgar detalhes. “Com certeza, tem mais música vindo aí, mas não podemos revelar quando será lançada”, diz Branca. “Temos ideias e coisas nas quais estamos trabalhando, mas nada que estejamos prontos para anunciar.” Neste meio tempo, o espólio de Michael Jackson e a Sony estão enfrentando uma batalha judicial com o lendário produtor Quincy Jones sobre vários projetos, incluindo os shows do Cirque. No fim de outubro, Jones entrou com um processo de US$ 10 milhões por quebra de contrato contra a Sony e a MJJ Productions (uma empresa de música controlada pelo espólio) relacionada com projetos do artista lançados após sua morte. Eles incluem o filme This Is It e sua trilha sonora, as produções do Cirque e a edição de aniversário de Bad. Jones, que produziu álbuns de Michael como Off  The Wall, Thriller e Bad, alega que as gravações master nas quais trabalhou foram editadas e mixadas de maneira errada, para privá-lo de sua participação nos lucros finais. O produtor de 80 anos de idade também alega que os créditos por seu trabalho lhe foram negados nos lançamentos póstumos, e que a MJJ e a Sony fizeram acordos por fora para receber lucros que deveriam ter sido incluídos no cálculo de royalties. “Este caso não trata do relacionamento en- tre Quincy e Michael”, diz Henry Gradstein, o advogado de Jones. “Ele tem a ver com as ações que foram tomadas e com a receita devida após a morte de Michael.” O espólio de Michael Jackson está “surpreso e desapontando pelo fato de o Sr. Jones abrir um processo, indo além dos muitos milhões que ele já recebeu como pagamento – e que continua a receber – nos últimos 35 anos, tanto de Michael como do espólio e da Sony Music, sobre o licenciamento e vendas da música de Michael Jackson”, diz Howard Weitzman, advogado do espólio. “Acreditamos que o Sr. Jones foi adequadamente compensado.” O processo segue uma série de questões legais ligadas a Michael Jackson nos últimos meses. No dia 2 de outubro, a AEG Live foi declarada inocente da acusação de negligência pela contratação do Dr. Conrad Murray como médico pessoal antes de seus shows de retorno à ativa, em Londres. Murray, que anteriormente havia sido condenado por homicídio culposo na morte de Michael, foi recentemente libertado, depois de ter cumprido dois anos de uma pena de quatro. O júri escalado para o julgamento da AEG Live rejeitou unanimemente o processo trazido por Katherine Jackson, que buscava punir fi nanceiramente a promotora da temporada fixa de This Is It, que já estava planejada. Branca diz que o espólio não estava envolvido no julgamento. “Eu sinceramente sinto que o espírito de Mi- chael está vivo nesses palcos, apresentação após apresentação”, diz o roteirista/diretor King. “Ele ainda está comigo, conosco e com aqueles que o estão descobrindo agora, por meio desses shows. Espero que eles saiam de lá dizendo: ‘Uau, Michael Jackson é o maior showman de todos os tempos!’. Porque ele ainda é.”

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